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Do zero ao palco: como nasce um espetáculo de teatro de bonecos

Divulgação/Cia. Alma Livre,

Por: Pedro Leal

04/05/2026 - 15:05 - Atualizada em: 04/05/2026 - 15:34

Antes de chegar ao palco, um espetáculo de teatro de bonecos percorre um caminho silencioso, artesanal e, muitas vezes, longo. De origem alemã, a linguagem tem no Kasperltheater, ou teatro do Kasperl, uma de suas principais tradições, trazida por imigrantes ao Brasil, especialmente para Santa Catarina.

No caso de “Kasperl e o pão que o diabo amassou”, nova montagem da Cia. Alma Livre, esse percurso começou há mais de uma década, atravessou pesquisas, oficinas, reformulações e a espera por editais de incentivo até finalmente ganhar forma. Agora, o espetáculo entra em circulação por 12 cidades catarinenses, com 15 apresentações previstas entre maio e agosto.

Em Jaraguá, a parada é no sábado, dia 9 de maio, no SESC de Jaraguá do Sul.

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Confira a agenda completa:

Maio:

7/05, 15h (qui) – Itajaí / Sala Bull na Univali
9/05, 15h (sáb) – Jaraguá / SESC

22/05, 19h (sex) – Blumenau / Sala S-113FURB
24/05, 15h (dom) – Jaraguá / SCAR

28/05, 15h (qui) – Floripa / Teatro Carmen Fossari (FITA)
29/05, 15h (sex) – Criciúma / CEU ou Fund. Cultural

Junho

5/06, 19h (sex) – Joinville / Teatro AJOTE
6/06, 15h (sab)- Pomerode / Clube Pomerode
7/06, 15h (dom) – Jaraguá / Salão Barg
14/06, 15h (dom)- Rio do Sul / Teatro Embaixo da Ponte
18/06, 10h (quin) – Schroeder / Escola Emilio da Silva
20/06, 19h30 (sab) – Jaraguá / Igreja Luterana Barra
25/06, 10h (quin) – Corupá / Escola Teresa Ramos

Agosto

7/08, 19h (sex) – Chapecó / SESC
8/08, 15h (sab) – Lages / SESC

O ponto de partida está na trajetória da atriz e bonequeira Mery Petty, coordenadora da Cia. Alma Livre, grupo com sede em Jaraguá do Sul (SC), que também conta com a atuação de Nicoli Pereira e Vinícius da Cunha. Ainda na infância, Mery foi influenciada pelas apresentações da bonequeira Móin-Móin, imigrante alemã Margarethe Schlünzen, referência na formação do teatro de bonecos em Santa Catarina.

“Recordo especialmente dos bonecos, do som do violino e do ursinho usado para convidar as crianças para as apresentações, que eram feitas pela Móin-Móin. Na época, eu nem sabia que era ela quem manipulava os bonecos. Só fui descobrir isso já adulta”, conta. Esse vínculo levou a artista a resgatar parte da coleção original de bonecos ligados à bonequeira, hoje preservada no Museu Emílio da Silva, em Jaraguá do Sul. “Ganhei os bonecos da neta da Móin-Móin e não achei justo ficar com eles. Por isso, levei tudo para o museu”, afirma.

Foi também a partir dessa imersão que nasceu uma das bases do novo espetáculo. Um livro de Gustav Resatz, de 1944, considerado por Mery uma espécie de “beabá” do teatro de Kasperl, chegou às suas mãos por intermédio de um amigo bonequeiro. “A obra, em alemão, precisou ser traduzida e trazia, entre outros elementos, o texto ‘O saco de farinha do rei’ e o perfil psicológico dos personagens. A partir desse material, confeccionei a própria coleção de bonecos usada hoje pela companhia”, revela.

Ao todo, foram criados 17 personagens, todos em papel machê, com características físicas e perfis próprios. Embora nem todos estejam na cena atual, esse conjunto foi sendo desenvolvido ao longo dos anos e reaproveitado, adaptado e reorganizado conforme as necessidades de cada montagem. No caso de “Kasperl e o pão que o diabo amassou”, cerca de dez personagens entram efetivamente na nova versão. O elenco foi reorganizado, com mudanças que atualizam a narrativa, como a inclusão de novos personagens e a adaptação de outros.

A dramaturgia também passou por atualização. Embora o texto-base tenha origem em uma tradição ligada ao imaginário medieval, a montagem atual incorpora novas camadas de sentido. A principal delas está na inclusão de uma leitura contemporânea, com temas como fome e desigualdade atravessando a narrativa. Na versão trabalhada pela companhia, Kasperl assume um papel mais ativo na mediação dos conflitos, criando soluções que beneficiam o coletivo.

Bastidores e desafios

Se a dramaturgia foi revista, a encenação também exigiu novas escolhas. A estrutura da empanada, palco tradicional do teatro de bonecos, foi construída pela equipe, com execução decorativa do cenógrafo. Cortinas, estandarte, cenários de fundo e elementos visuais ajudam a compor o ambiente, incluindo espaços como a casa da vó e o castelo.

“Grande parte do processo é artesanal. Um detalhe aparentemente simples, como instalar uma cortina, pode depender da escolha do fio adequado, da produção sob medida de peças ou do acabamento específico de materiais”, explica Mery.

Antes de o espetáculo estar pronto, existe uma cadeia de etapas pouco visíveis ao público, como a participação de diferentes profissionais no desenvolvimento de adereços, cenografia e trilha sonora, além da colaboração de diretores convidados em oficinas específicas. A trilha sonora segue essa lógica de construção coletiva. O grupo desenvolveu sons e efeitos a partir de materiais reciclados, criando uma base sonora integrada à cena. Em vez de apenas ambientar, o som participa da narrativa e do ritmo da encenação.

Na fase final, o desafio é operacional. A conclusão do espetáculo depende da finalização de diversos elementos simultaneamente, o que exige articulação de equipe, fornecedores e prazos. Segundo Mery, o processo envolve lidar com múltiplas demandas ao mesmo tempo e com a pressão da reta final.

A montagem levou anos para ser viabilizada, principalmente pela dificuldade de acesso a financiamento. Agora, o projeto é realizado pela companhia por meio do Programa de Incentivo à Cultura (PIC), do Governo do Estado de Santa Catarina, com aprovação da Fundação Catarinense de Cultura e incentivo das empresas Grupo Tigre, Urbano Alimentos e Grupo Kyly.

O espetáculo vai circular por Itajaí, Jaraguá do Sul, Schroeder, Corupá, Joinville, Rio do Sul, Pomerode, Blumenau, Lages, Florianópolis, Chapecó e Criciúma.

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Pedro Leal

Analista de mercado e mestre em jornalismo (universidades de Swansea, País de Gales, e Aarhus, Dinamarca).