Dois homens, de 42 e 44 anos, foram presos pela Polícia Civil em Jaraguá do Sul, suspeitos de envolvimento em abusos sexuais contra pessoas surdas. Um dos investigados é presidente da Associação de Surdos de Jaraguá do Sul, e o outro é seu marido. Após a prisão, os dois foram encaminhados ao presídio. A audiência de custódia está prevista para a tarde desta sexta-feira, quando a Justiça deve decidir se as prisões serão mantidas.
De acordo com o delegado Augusto Brandão, da Delegacia da Mulher e da Criança e Adolescente de Jaraguá do Sul, a investigação começou após uma requisição do Ministério Público. A denúncia apontava que pessoas estariam sendo abusadas pelo presidente da associação e pelo companheiro dele.
“Ainda em 2025, recebemos uma requisição do Ministério Público, pois chegou uma denúncia lá de que pessoas estavam sendo abusadas pelo presidente da Associação de Surdos e Mudos de Jaraguá do Sul e seu marido”, afirmou o delegado.
Segundo Brandão, a apuração avançou de forma cuidadosa porque as vítimas tinham medo de relatar o que ocorria.
“As investigações demoraram um pouco, porque as vítimas tinham verdadeiro temor de falar, de nos trazer o que estava acontecendo, porque os investigados utilizavam intimidação, chantagens emocionais, para que eles não levassem o conhecimento à autoridade”, declarou.
Até o momento, cinco vítimas foram identificadas. Quatro delas foram ouvidas pela Polícia Civil, enquanto uma recusou comparecer à delegacia. Conforme o delegado, os abusos teriam começado há bastante tempo.

Foto: Gabriel JR/OCP News
“Foi identificado que esses abusos começaram há bastante tempo, há pelo menos nove anos”, disse Augusto Brandão.
Ainda conforme a investigação, os abusos teriam ocorrido em diferentes locais e, segundo a polícia, eram acompanhados de ameaças, chantagens e intimidações para impedir que os fatos chegassem às autoridades.
O delegado também relatou que um dos investigados costumava oferecer dinheiro às vítimas.
“É importante mencionar também que um dos investigados tinha o costume de oferecer dinheiro às vítimas para que cedessem à sua vontade”, afirmou.
Durante o depoimento de uma das vítimas, segundo Brandão, um dos investigados fez uma chamada de vídeo e pediu desculpas.
“Quando a gente estava tomando depoimento de uma dessas vítimas, ainda na delegacia, um dos investigados fez uma ligação por vídeo e meio que confessou, pediu desculpa, falou que era errado o que ele estava fazendo, demonstrando que tinha ciência do que estava fazendo, que era errado”, relatou o delegado.
A investigação também apontou que algumas vítimas apresentavam maior vulnerabilidade, inclusive por dificuldades de comunicação. Segundo a Polícia Civil, elas procuravam a associação para aprender Libras e receber orientação.
“Algumas dessas vítimas apresentavam uma certa ingenuidade, talvez pelo fato de não saberem comunicar, e são vítimas que procuraram a associação para aprender os sinais de línguas, ou seja, para serem instruídas. E esses investigados abusaram dessa confiança que foi depositada para a prática desses abusos”, afirmou Brandão.
A Polícia Civil reforça que novas vítimas ou pessoas que tenham conhecimento de casos semelhantes devem procurar a Delegacia da Mulher em Jaraguá do Sul.
“É muito importante, caso alguém tenha conhecimento, seu filho, um parente, uma pessoa próxima tenha sido vítima, tenha ocorrido essa situação, que procure a Delegacia da Mulher aqui em Jaraguá do Sul”, orientou o delegado.
A reportagem do OCP tenta contato com a defesa dos investigados. O espaço segue aberto para manifestação.
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Relembre o caso
Os dois homens foram presos pela Polícia Civil na quinta-feira (30), no início da noite, no bairro Czerniewicz, em Jaraguá do Sul. A prisão ocorreu durante uma visita a uma unidade hospitalar.
Uma das vítimas procurou o OCP acompanhada das advogadas Sandra Rissatto, Camila Silvestrin e Taiana Prestes para expor o caso.
Segundo o relato da vítima, os fatos teriam começado em 2010, quando ele tinha aproximadamente 12 anos. O suspeito, que atuava como professor de Libras e também é surdo, teria se aproveitado do ambiente de apoio educacional e de momentos de isolamento para iniciar comportamentos inadequados.
A denúncia aponta que a violência evoluiu de conteúdos impróprios para abusos sexuais dentro e fora do ambiente escolar. Além do professor, o companheiro dele também estaria envolvido nas ocorrências, auxiliando na manutenção de uma relação de controle sobre a vítima por meio de aproximações, presentes e benefícios.
O denunciante afirma que, na época, acreditava estar sozinho, mas hoje relata que existem outros casos semelhantes, embora nem todos tenham sido oficialmente registrados.
O caso também expõe dificuldades enfrentadas pela comunidade surda para denunciar situações de abuso, como barreiras de comunicação, falta de acessibilidade e medo de retaliação.
A Polícia Civil segue apurando os fatos, incluindo a possibilidade de novas vítimas.