O fim de semana político em Santa Catarina foi marcado por um evento que, mais do que reunir lideranças, sinalizou uma tentativa concreta de reorganização interna e alinhamento estratégico do Partido Liberal, o PL, comandado no estado pelo governador Jorginho Mello. O chamado Almoço de Ideias, promovido pelo deputado federal Daniel Freitas, já no segundo mandato, em Governador Celso Ramos, serviu como palco para um gesto político relevante: a busca por distensão entre dois dos principais expoentes do bolsonarismo no estado, Carlos Bolsonaro, o Carluxo, e Ana Campagnolo, a deputada estadual mais votada em 2022.
O encontro teve peso político não apenas pelo público expressivo — com lideranças empresariais, comunitárias e políticas —, mas também porque atraiu o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, e pela participação, ainda que por vídeo, do presidenciável Flávio Bolsonaro, hoje liderando todas as pesquisas eleitorais.
Mais do que um evento, foi uma demonstração clara de que o PL tenta entrar na reta decisiva do processo eleitoral com o mínimo de ruído interno possível — algo que, até aqui, não vinha sendo sua marca. Pacificação, aliás, que parecia difícil de se alcançar.
Distensão
O ponto mais emblemático foi o discurso de Carlos Bolsonaro. Em tom surpreendentemente moderado, reconheceu divergências, mas fez questão de destacar a satisfação de dividir espaço com Ana Campagnolo, sinalizando disposição para caminhar conjuntamente na campanha.
Discurso e prática
O gesto não é trivial. Trata-se de dois polos relevantes dentro do mesmo campo político, com histórico recente de atritos. A imagem construída ali foi de distensão — ainda que, na política, gestos simbólicos precisem ser testados na prática.
Diretrizes
Coube a Ana Campagnolo dar densidade política ao encontro ao elencar três objetivos estratégicos do PL:
A eleição de Flávio Bolsonaro à Presidência da República;
A reeleição do governador Jorginho Mello;
A conquista das duas vagas ao Senado por Santa Catarina (isso inclui a eleição de Carluxo).
Ao fazer isso, Ana não apenas organizou o discurso partidário, mas também deixou claro que o PL entra na disputa com ambição máxima — tanto no plano nacional quanto estadual. Ana Campagnolo, aliás, tem tudo para ser novamente a mais votada para deputada estadual em Santa Catarina.
Projeções
As projeções apresentadas no evento são ousadas: vitória de Flávio Bolsonaro em segundo turno com ampla margem no estado, reeleição de Jorginho Mello ainda no primeiro turno e uma bancada robusta.
Estadual e federal
No plano proporcional, o PL fala em até 15 deputados estaduais — de um total de 40 que compõem a Alesc — e crescimento da bancada federal, passando dos atuais seis para sete ou até oito parlamentares.
É um cenário que, se por um lado revela confiança, por outro exige uma engrenagem política absolutamente afinada para se concretizar. E este ponto está, claramente, na pauta das lideranças liberais.
Cenário
Enquanto o PL demonstra musculatura e tenta ajustar suas peças, o contraste com outros campos políticos é evidente.
A esquerda catarinense já está organizada, com chapa majoritária definida e unidade consolidada. Do outro lado, o pré-candidato João Rodrigues segue enfrentando dificuldades para estruturar sua candidatura ao governo.
Quem?
Falta ao ex-prefeito de Chapecó, até o momento, a composição completa: não há definição de vice nem da segunda vaga ao Senado, restringindo-se, por ora, à parceria com Esperidião Amin.
Esse descompasso organizacional pode custar caro em uma eleição em que tempo e estrutura são ativos decisivos.
Corrigindo a rota
O evento de Governador Celso Ramos mostrou um PL que busca corrigir suas fissuras internas e entrar ainda mais competitivo na disputa. A tentativa de pacificação entre Carlos Bolsonaro e Ana Campagnolo é um passo importante, mas ainda inicial.
Fato
Na política, unidade não se declara — se constrói. E, neste momento, o PL dá sinais de que compreendeu essa necessidade. Resta saber se conseguirá sustentar esse alinhamento até outubro, especialmente diante de um cenário que aponta para uma eleição sangrenta, principalmente no contexto nacional.