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A mercantilização sem limites

Por: Emílio Da Silva Neto

17/04/2026 - 07:04 - Atualizada em: 17/04/2026 - 09:52

Meu pai, Emílio Da Silva Júnior (1924-2017), renomado advogado tributarista, só aceitava clientes se a correspondente reivindicação do prospect fosse justa (honesta), com base em seu princípio pessoal, segundo o qual, “advogado que defende bandido, é mais bandido ainda”. Ou seja, ele sempre objetivava trabalhar pela causa em si, relegando os honorários a um segundo plano, isto é, longe de “mercantilizar” (a qualquer custo) uma meta profissional.

Lá na Idade Média (entre os séculos V e XV), a “mercantilização” foi uma prática católica, com a venda de “indulgências”, documentos que prometiam, sob pagamento, a redução da pena por pecados e, até mesmo, um “lugar no céu”, algo que se tornou uma das causas da reforma protestante (1517, com Martinho Lutero), pois a fé cristã sempre considerou a salvação um dom gratuito de Deus (uma graça). Mas, ainda assim, ela, a fé, também foi “mercantilizada”.

Recentemente, um vídeo viralizou, afirmando que o Espírito Santo “tem frequência”, isto é, a ciência provou que a oração coloca o coração em 0,1 Hz, a mesma frequência de paz entre uma mãe e o seu bebê. Ou seja, o nosso corpo reage de forma real à presença de Deus, como que através de uma energia impessoal, vinda da natureza. Como resultado, o estresse cai, a pressão estabiliza e o corpo descansa. E isso lembra o ”Ruach”, judaico, aquele sopro extra Dele em nossa vida, tudo sem se pagar nada (R$), isto é, sem nenhuma “mercantilização” envolvida: custos com médicos, psicólogos, terapeutas, etc.

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Sobre isso, suplementarmente, vale citar um amigo meu, médico psiquiatra de mais de 70 anos de idade, e ainda na ativa, que conheci com os pés na areia (um “remédio” gratuito) de Barra Velha: “a medicina moderna, quando aplicada num corpo normal, transforma-se numa armadilha silenciosa, pois ela se esquece de que a fé gera energia, a qual estimula a imunologia”.

Outro exemplo de obsessão (no caso, econômica) pela “mercantilização”: a China está abandonando o foco exclusivo em bens duráveis, como carros e eletrodomésticos, para estimular outro consumo, o de converter o afeto por pets, animes e brinquedos colecionáveis em uma receita recorrente para sustentar o PIB.

Sim, diferentemente de uma geladeira, que se compra uma vez a cada década, um pet ou um hobby gera gastos constantes com serviços, acessórios e assinaturas.

Enfim, a “mercantilização” sem limites é um dos traços mais marcantes da sociedade contemporânea. Trata-se de um processo pelo qual praticamente todas as dimensões da vida humana – inclusive aquelas antes consideradas íntimas, simbólicas ou sagradas – são transformadas em produtos, serviços ou oportunidades de lucro. Se, em outros tempos, o mercado orbitava ao redor das necessidades básicas, hoje ele invade o campo das emoções, dos relacionamentos, da saúde e até da espiritualidade. Nesse cenário, tudo pode ser precificado, embalado e vendido.

“Óia só, como pode ?!?” diria a minha mãe Dida (1929-2019), manezinha da Ilha: “até festas de divórcio, que antes era visto como um momento de ruptura, dor ou, no mínimo, reflexão, agora se transforma em evento, para empresas ganharem nas costas de “abobados”

Em resumo, ao se transformar até um sofrimento ou um recomeço em espetáculo, cria-se mais uma ocasião “mercantilista” para consumo.

Haja!!! Eita!!! Haverá limites para a “mercantilização”?!?

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Emílio Da Silva Neto

Consultor especializado em profissionalização, governança e sucessão empresarial familiar. Com vasta experiência, Emílio da Silva Neto é PhD/Dr.Ing, Pós-Doc, Industrial, Consultor, Conselheiro, Palestrante, Professor e Sócio da 3S Consultoria Empresarial Familiar. Redes sociais: emiliodsneto | www.consultoria3s.com