Meu pai, Emílio Da Silva Júnior (1924-2017), renomado advogado tributarista, só aceitava clientes se a correspondente reivindicação do prospect fosse justa (honesta), com base em seu princípio pessoal, segundo o qual, “advogado que defende bandido, é mais bandido ainda”. Ou seja, ele sempre objetivava trabalhar pela causa em si, relegando os honorários a um segundo plano, isto é, longe de “mercantilizar” (a qualquer custo) uma meta profissional.
Lá na Idade Média (entre os séculos V e XV), a “mercantilização” foi uma prática católica, com a venda de “indulgências”, documentos que prometiam, sob pagamento, a redução da pena por pecados e, até mesmo, um “lugar no céu”, algo que se tornou uma das causas da reforma protestante (1517, com Martinho Lutero), pois a fé cristã sempre considerou a salvação um dom gratuito de Deus (uma graça). Mas, ainda assim, ela, a fé, também foi “mercantilizada”.
Recentemente, um vídeo viralizou, afirmando que o Espírito Santo “tem frequência”, isto é, a ciência provou que a oração coloca o coração em 0,1 Hz, a mesma frequência de paz entre uma mãe e o seu bebê. Ou seja, o nosso corpo reage de forma real à presença de Deus, como que através de uma energia impessoal, vinda da natureza. Como resultado, o estresse cai, a pressão estabiliza e o corpo descansa. E isso lembra o ”Ruach”, judaico, aquele sopro extra Dele em nossa vida, tudo sem se pagar nada (R$), isto é, sem nenhuma “mercantilização” envolvida: custos com médicos, psicólogos, terapeutas, etc.
Sobre isso, suplementarmente, vale citar um amigo meu, médico psiquiatra de mais de 70 anos de idade, e ainda na ativa, que conheci com os pés na areia (um “remédio” gratuito) de Barra Velha: “a medicina moderna, quando aplicada num corpo normal, transforma-se numa armadilha silenciosa, pois ela se esquece de que a fé gera energia, a qual estimula a imunologia”.
Outro exemplo de obsessão (no caso, econômica) pela “mercantilização”: a China está abandonando o foco exclusivo em bens duráveis, como carros e eletrodomésticos, para estimular outro consumo, o de converter o afeto por pets, animes e brinquedos colecionáveis em uma receita recorrente para sustentar o PIB.
Sim, diferentemente de uma geladeira, que se compra uma vez a cada década, um pet ou um hobby gera gastos constantes com serviços, acessórios e assinaturas.
Enfim, a “mercantilização” sem limites é um dos traços mais marcantes da sociedade contemporânea. Trata-se de um processo pelo qual praticamente todas as dimensões da vida humana – inclusive aquelas antes consideradas íntimas, simbólicas ou sagradas – são transformadas em produtos, serviços ou oportunidades de lucro. Se, em outros tempos, o mercado orbitava ao redor das necessidades básicas, hoje ele invade o campo das emoções, dos relacionamentos, da saúde e até da espiritualidade. Nesse cenário, tudo pode ser precificado, embalado e vendido.
Em resumo, ao se transformar até um sofrimento ou um recomeço em espetáculo, cria-se mais uma ocasião “mercantilista” para consumo.