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Largada calculada

Por: Claudio Prisco Paraíso

15/04/2026 - 06:04

A esquerda catarinense, enfim, sai da sombra e apresenta formalmente sua chapa majoritária para 2026. O ato está marcado para esta quinta-feira (16), em Florianópolis — uma data que não foi escolhida por acaso: exatamente quatro meses antes do início formal do processo eleitoral.

Trata-se de um movimento cirúrgico, pragmático e, sobretudo, alinhado a uma leitura mais fria do cenário político. Diferentemente de outros atores que queimaram largada, a frente de esquerda optou por concentrar forças no momento considerado mais estratégico — e, sob esse aspecto, começa sua caminhada com mais racionalidade do que improviso.

A composição já está posta: Gelson Merisio e Ângela Albino ao governo; Décio Lima e Afrânio Bopré ao Senado.

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Timing

Com isso, o grupo terá um intervalo de quatro meses até as convenções — previstas entre 20 de julho e 5 de agosto — e, posteriormente, o período de validação pela Justiça Eleitoral, que ocorre entre os dias 6 e 15 de agosto.

É um calendário enxuto, mas suficiente para quem aposta mais em consistência de discurso — dentro da visão esquerdista, evidentemente — do que em exposição precoce.

Pragmatismo

Aqui reside o ponto central. A esquerda foi pragmática. Enquanto João Rodrigues iniciou sua pré-campanha ao governo ainda antes da reeleição em 2024 — percorrendo o estado, buscando visibilidade e tentando consolidar seu nome —, o resultado prático foi, no mínimo, frustrante. Sua pré-candidatura, até aqui, não se sustentou, não para em pé.

Nada disso

A frente esquerdista observou esse movimento e fez o oposto: aguardou, organizou-se internamente e escolheu o timing. Em política, muitas vezes, o tempo é mais determinante do que a pressa.

Discurso inicial

A grande incógnita agora é o comportamento de Gelson Merisio nesta largada.

Será uma apresentação protocolar nesta quinta-feira ou um lançamento com sinalização clara de estratégia?

Baterias

Mais do que isso: para onde estará direcionado seu discurso? O alvo exclusivo será o governador Jorginho Mello, líder em todas as pesquisas e candidato à reeleição, ou haverá também investidas sobre João Rodrigues, que ainda tenta viabilizar seu projeto?

Escolhas

Essa definição não é trivial. Ela indicará o posicionamento da candidatura: enfrentamento direto ao favorito ou tentativa de capturar espaço no campo da oposição fragmentada. Merisio e João Rodrigues são da mesma região e têm as mesmas raízes políticas. Ah, sim, e não os convidem para um café.

Cenário nacional

Em paralelo, o ambiente nacional adiciona uma variável de alta volatilidade. Lula da Silva surpreendeu ao admitir que pode não disputar a reeleição, jogando a decisão para junho e colocando a esquerda em compasso de espera e apreensão.

Dados

A declaração não surge no vazio. Pesquisas recentes indicam crescimento de Flávio Bolsonaro e queda de Lula, com tendência de aproximação — e, em vários levantamentos, até inversão das curvas, com Flávio à frente.

Datafolha

No Datafolha mais recente (instituto conhecido e reconhecido por sua preferência ideológica, segundo críticos, e por erros já apontados em eleições anteriores), Flávio aparece numericamente à frente, ainda que dentro da margem de erro. Mais relevante do que o número é a trajetória: em março, Lula liderava; agora, há empate técnico com viés de alta para o adversário.

Queda livre

Além disso, a reprovação do governo se aproxima dos 50% em diversos institutos, enquanto a aprovação permanece em patamar mais baixo. É um quadro desafiador para quem chega à sétima disputa presidencial, após três derrotas e três vitórias.

Alternativas

Diante desse cenário, a turma governista começa a trabalhar hipóteses. Nomes como Camilo Santana, Fernando Haddad e até rearranjos envolvendo Simone Tebet entram no radar.

A lógica é conhecida: preservar capital político e evitar um desfecho adverso em uma eventual última eleição de Lula, que, evidentemente, não quer sair da vida pública pela porta dos fundos.

Unidade

Enquanto isso, em Santa Catarina, a esquerda apresenta um ativo que seus adversários não conseguem replicar: unidade.

A chapa reúne PSB, PDT, PT e PSOL, além do apoio de PCdoB e PV — integrantes da federação petista —, e da Rede Sustentabilidade. É um bloco coeso, ao menos neste momento, e com estratégia definida, já conhecida.

Votos preciosos

Num cenário marcado por fragmentação no campo adversário, essa coesão pode não ser suficiente para vencer, mas certamente é condição necessária para competir e tentar melhorar o desempenho do candidato a presidente em Santa Catarina.

Jogo aberto

O que se desenha, portanto, é um quadro de contrastes: de um lado, uma esquerda organizada, pragmática e com timing ajustado; de outro, adversários ainda tentando consolidar alianças e narrativas.

Mas há uma variável que pode reconfigurar tudo: a decisão de Lula.

Se ele ficar, o jogo é um. Se sair, será outro completamente diferente — inclusive em Santa Catarina.

Até lá, a largada está dada. E, desta vez, sem atropelos.

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