Sabe aquela vontade de querer saber exatamente o que um cachorro está pensando quando ele encara o seu dono comendo pizza?!?
Pois então: o mercado não só quer saber, como está investindo bilhões para traduzir esse olhar.
Sim, diferentes pet-techs – startups com produtos para animais de estimação – entraram de cabeça em IA, biometria e tradução de comportamento, com o objetivo de dar voz ao “melhor amigo”. Alguns exemplos de tecnologias são: a) modelos de linguagem para identificar se o som emitido pelo animal significa dor, tédio ou fome; b) dispositivos com botões sonoros que permitem pets combinarem conceitos para formar frases como “brincar-lá-fora”; c) sensores que monitoram o suor das patas e a respiração para detectar ansiedade antes mesmo de sair de casa.
Mas, por que isso importa? Importa porque antigamente, o gasto com pets era ração e vacina, mas, hoje, muitas pessoas têm exagerado no seu “bem-estar mental”, a ponto de, com a taxa de natalidade diminuindo, os animais estarem herdando parte do orçamento que antes era dos bebês.
Em consequência, o mercado pet é um dos únicos que não para de crescer, pois muitos até vem cortando o seu streaming, mas não o petisco do “filho de quatro patas”. Por isso, em números, o setor deve saltar para US$ 500 bilhões até 2030. Este exagero é um espelho curioso do nosso tempo, que não nasce do nada: brota de tendências reais, cresce alimentado por emoções legítimas e já se transformou em uma narrativa incontestável.
Atualmente, inclusive, muitos deixam de tratar pets como animais, para tratá-los como filhos — e, mais do que isso, investem neles recursos, tempo, expectativas e emoções, que antes eram destinados a crianças, mudança essa que revela transformações profundas na forma como vivemos, nos relacionamos e consumimos.
É aqui que entra, espertamente, o mercado, sempre cirurgicamente atento às mudanças de comportamento: se o animal é tratado como filho, então deve receber produtos e serviços compatíveis com esse status. E, disto, é que nasceu um dos mercados mais resilientes e dinâmicos da atualidade.
O exagero revela-se ainda com mais clareza, através da ideia da “comunicação humana” com os pets, no mínimo, num grau inevitável de simplificação – e, muitas vezes, de mera projeção.
Em outras palavras, eis o ponto crucial para compreender o fenômeno: o consumo no mercado pet não é puramente racional. Ele é profundamente emocional, pois as decisões de compra são guiadas menos por custo-benefício e mais por percepção de cuidado.
Resumindo tudo, há um componente social nessa dinâmica: os pets assumindo este papel de conexão afetiva, que muitas vezes falta nas relações humanas, oferece presença, fidelidade e ausência de julgamento – características raras e valiosas.
Assim, nesse contexto, investir neles é uma forma de preencher lacunas emocionais… porque, no fim, o que um pet, provavelmente gostaria é muito simples: apenas comida, passeio, um canto para dormir e, no máximo, um carinho no fim do dia, ocupando um lugar claro em companhia, proteção e utilidade. Isso tudo, preservando, logicamente, uma fronteira nítida entre o humano e o animal, fronteira esta, que começou a se dissolver, aos poucos, quando o pet deixou de ser “o animal” para se tornar “o filho”.
Por isso, todo eventual “resto sofisticado” pode dizer muito sobre o dono do pet…