Na temporada de 2026, clubes fora da elite voltam a disputar espaço nas Séries B e C com objetivos bem definidos: acesso, estabilidade financeira e visibilidade nacional. Equipes como Criciúma, Vila Nova e Paysandu iniciaram o ano com metas claras de subir de divisão ou consolidar projetos competitivos dentro das suas ligas.
Isso porque os clubes regionais têm realidades muito distintas. A principal diferença é o orçamento, que pode ser dez vezes menor do que o dos clubes que têm receitas da TV no Brasil (ou seja, os que podemos chamar de clubes da elite).
Muitos exemplos regionais como o Criciúma, Paysandu, Vila Nova ou Ponte Preta provam que as receitas caem quando os clubes alternam entre a Série A e a Série B. Por isso, o desafio começa na planilha antes mesmo de começar no campo. Hoje podemos, com dados concretos, mostrar as duas realidades: a da elite e a dos clubes regionais, mas sempre com a mesma força e cultura de futebol no Brasil.
Dependência do calendário estadual
Os clubes precisam manter comissão técnica e continuidade tática, mas nem sempre isso é possível com qualidade. O planejamento é sempre de curto prazo porque muitos clubes disputam apenas três ou quatro meses de competição. E, sem competição nacional, normalmente ficam com o segundo semestre vazio. Os contratos são curtos e tornam o elenco instável, o que dificulta a viabilidade financeira e a contratação e manutenção de talentos que possam marcar a diferença para o clube subir para uma divisão superior. Alguns torcedores acompanham probabilidades e utilizam recursos como o código de indicação KTO para acompanhar diferentes prognósticos de jogos e consultar os calendários esportivos.
Clubes como Náutico e Santa Cruz, que disputam divisões inferiores do futebol nacional, dependem diretamente do desempenho no estadual para garantir calendário no segundo semestre. Já o América-RN tem apostado em campanhas consistentes na Série D para tentar regressar a competições mais relevantes do cenário nacional, minimizando o desafio financeiro que muitos clubes enfrentam.
O desafio financeiro invisível
Como em todos os outros esportes, a parte financeira é muito importante. Em primeiro lugar, a bilheteria depende muito do clássico local e nem sempre é o desejado. Em seguida, entram os patrocínios regionais, que são a principal fonte de receita. Há também o apoio municipal, que por vezes é o ponto central.
No caso de clubes na Série D, muitas vezes os financiamentos não cobrem o custo de deslocamento e a ausência de contratos televisivos robustos amplia a desigualdade em relação ao futebol da elite.
No entanto, isso nunca fez com que os clubes deixassem de tentar fazer o melhor que podem, focando em projetos de formação ou parcerias empresariais locais.
A logística e a geografia do Brasil no esporte local
O Brasil é continental e a Série D envolve viagens interestaduais longas. Os clubes que são mais locais não têm esse problema, mas quem está na Série D, por vezes, percorre milhares de quilômetros.
Temos vários exemplos dessa dificuldade, clubes do Norte viajam milhares de quilômetros, equipes do sul enfrentam deslocamentos ao Centro-Oeste e clubes do Nordeste jogam em regiões com pouca malha aérea acessível.
Isso causa um enorme desgaste físico, um aumento de custos e a necessidade de um elenco mais profundo, que tenha mais tempo para se dedicar ao futebol. Os deslocamentos rodoviários ainda são comuns porque o aluguel de um avião é ainda mais caro.
É por isso que quem joga em clubes regionais faz isso pelo amor ao futebol, mesmo com um grande desgaste que não se verifica na Série A.
A burocracia do futebol local
O futebol local tornou-se mais profissional e, ao mesmo tempo, mais exigente juridicamente. Existem clubes que perdem mando de campo por falta de laudo ou equipes que se atrasam no registro de jogadores.
O registro dos atletas no BID, as exigências fiscais e os licenciamentos do estádio são alguns dos desafios que clubes com meios financeiros e apoio jurídico limitados enfrentam todos os anos. No entanto, a vantagem é que, como a maioria dos procedimentos é igual de ano para ano, eles já sabem de antemão o que fazer e se preparam antecipadamente para as suas obrigações fiscais.
Os bons jogadores tornam-se ainda melhores
O jogador de um clube pode facilmente se tornar um jogador com o perfil ideal para um clube maior. Por vezes, os clubes regionais são utilizados como vitrine para uma transferência para uma equipe de maior expressão, o que torna difícil para o clube regional criar uma identidade técnica de longo prazo.
As transferências, além de frequentes, geralmente beneficiam os jogadores. Se por um lado elas podem ajudar os jogadores a alcançar sonhos maiores, por outro não garantem a continuidade do fator técnico essencial do jogador no clube para a próxima temporada. Essa volatilidade faz com que os clubes tenham que contratar novos jogadores frequentemente e jogadores que hoje atuam em clubes da Série A começaram em equipes regionais como Criciúma, Juventude ou Goiás
Oportunidade e resiliência no futebol regional
No espírito de camaradagem e companheirismo, os jogadores crescem muito nos clubes regionais. Os clubes também aprendem a gerir melhor os recursos, e existem clubes médios que chegam à Série B facilmente com projetos estruturados.
A visibilidade digital de clubes menores também é mais fácil, porque na era onde tudo é feito pela internet, o fato de os clubes estarem fora da elite não significa que sejam irrelevantes.
O futebol brasileiro é sustentado por uma base regional que alimenta o sistema nacional: o clube regional de hoje pode ser o clube da elite de amanhã.
Na temporada atual, alguns clubes fora da elite voltam a assumir protagonismo dentro das suas divisões. O Criciúma, após passagens recentes pela Série A do Campeonato Catarinense, procura estabilidade na Série B. O Vila Nova mantém-se competitivo na luta por posições superiores, enquanto o Paysandu tenta consolidar-se como candidato em competições nacionais. Esses exemplos mostram que, mesmo fora da elite, existem projetos esportivos estruturados e objetivos claros, o que mantém o futebol brasileiro dinâmico para além dos principais clubes.