A decisão do STF, divulgada nesta semana, que condenou moradores de Corupá a 14 anos de prisão por ajudarem a pagar um ônibus para manifestações em Brasília é mais um episódio que revolta qualquer cidadão. Não estamos falando de terroristas armados, nem de chefes de quadrilha, nem de políticos corruptos. Estamos falando de pessoas que, segundo a própria investigação, nem estavam em Brasília no dia 8 de janeiro.
Ainda assim, receberam penas que se aproximam das aplicadas a homicidas e traficantes.
Isso levanta uma pergunta inevitável: que tipo de justiça é essa?
Enquanto cidadãos comuns recebem punições duríssimas por envolvimento indireto em protestos, o Brasil convive há décadas com escândalos bilionários de corrupção protagonizados por políticos poderosos — muitos deles sem condenação definitiva ou já de volta à vida pública.
O país já assistiu ao Mensalão, um esquema que comprava apoio político no Congresso com dinheiro público. Depois veio o Petrolão, revelado pela Operação Lava Jato, que desviou bilhões da Petrobras e se tornou um dos maiores casos de corrupção da história mundial.
Somam-se a isso os escândalos recorrentes envolvendo fraudes no INSS, contratos suspeitos em estatais, desvios em obras públicas e tantos outros episódios que drenaram recursos que deveriam estar na saúde, na educação e na segurança.
Só no Petrolão, estimativas apontam que mais de R$ 40 bilhões foram desviados. No Mensalão, os valores chegaram a cifras exorbitantes. A Lava Jato recuperou bilhões, mas também revelou como o sistema político brasileiro foi capturado por esquemas gigantescos.
Mesmo assim, muitos envolvidos seguem soltos, disputando eleições ou ocupando cargos públicos.
E o cidadão comum olha para isso e não entende.
Como pode alguém que ajuda a pagar um ônibus para um protesto receber 14 anos de prisão, enquanto políticos que participaram de esquemas bilionários conseguem escapar de punições ou veem seus processos anulados?
Não se trata de defender vandalismo ou depredação. Quem quebrou patrimônio público deve responder por isso. Mas a pena precisa ser proporcional e individual conforme a participação e cada um. A Justiça precisa ter equilíbrio. E hoje o que vemos é exatamente o contrário: dois pesos e duas medidas.
Quando o Judiciário passa a agir com excessos, com decisões desproporcionais e seletivas, a confiança da população nas instituições começa a ruir.
O Brasil precisa de instituições fortes. Mas instituições fortes não são aquelas que intimidam ou perseguem — são aquelas que agem com equilíbrio, respeito às leis e igualdade perante todos.
A Constituição garante liberdade de manifestação e garante também o devido processo legal. Nenhuma democracia se sustenta quando essas garantias são relativizadas.
O que aconteceu com cidadãos de Corupá virou símbolo de um problema maior: o risco de um poder que não aceita limites.
O país precisa voltar ao caminho da justiça verdadeira — aquela que pune corruptos que roubam bilhões do povo brasileiro e que não transforma cidadãos comuns em exemplos para demonstrar força.
Porque democracia não se sustenta com medo.
Democracia se sustenta com liberdade, responsabilidade e justiça de verdade.