A nova rodada da pesquisa do Datafolha, divulgada no fim de semana, recolocou no centro do debate político nacional a corrida presidencial de 2026. Como de costume, os números do instituto são recebidos com cautela — quando não com aberta desconfiança — por parcela significativa do eleitorado e do meio político. Ainda assim, o levantamento traz sinais que merecem atenção.
O dado mais relevante é que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva aparece apenas três pontos à frente do senador Flávio Bolsonaro em um eventual segundo turno. Dentro da margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou para menos, trata-se de um empate técnico.
E isso ocorre em um ambiente político extremamente turbulento para o governo federal.
Margem apertada
Segundo o levantamento do Datafolha, os demais pré-candidatos testados aparecem muito distantes, todos abaixo de dois dígitos.
Na prática, o quadro reforça uma tendência que já vinha sendo apontada por outros institutos: a disputa presidencial tende a se polarizar novamente entre a trincheira esquerdista e o campo conservador.
Nesse contexto, o crescimento de Flávio Bolsonaro chama atenção, sobretudo porque ocorre paralelamente a uma leve erosão nas intenções de voto do atual presidente.
PSD sem espaço
A pesquisa também testou três nomes do PSD: os governadores Ronaldo Caiado, Ratinho Júnior e Eduardo Leite.
Nenhum deles apresentou desempenho capaz de alterar o eixo da disputa. Caiado e Leite permanecem com índices modestos, enquanto Ratinho Júnior só alcança dois dígitos — cerca de 11% — quando o ex-ministro Tarcísio de Freitas aparece como candidato com apoio do PL.
Nos cenários em que Flávio Bolsonaro é testado, Ratinho sequer alcança os 10%.
Traduzindo: o PSD segue sem espaço real na disputa presidencial.
Desconfiança histórica
Há ainda um componente recorrente quando se fala em Datafolha: a desconfiança histórica sobre suas projeções eleitorais. Ao longo de sucessivas eleições, o instituto acumulou episódios de erros relevantes — as chamadas “barrigadas estatísticas”.
Por isso mesmo, quando o levantamento aponta Lula três pontos à frente, há quem sustente que o quadro real possa ser exatamente o inverso.
Com margem de erro de dois pontos para mais ou para menos, o cenário prático continua sendo o de empate técnico.
Governo pressionado
Outro indicador importante do levantamento é o índice de desaprovação do governo federal. Segundo o Datafolha, a rejeição à gestão Lula alcançou 49%.
Mais significativo ainda é o movimento da curva: enquanto a desaprovação cresce, a aprovação registra queda, situando-se na casa dos 47%.
Essa inversão de tendência é politicamente preocupante para o Palácio do Planalto.
Ambiente explosivo
A conjuntura política do fim de semana trouxe ainda uma sequência de fatos que aumentam a pressão sobre o governo.
Entre eles, a informação de que a Polícia Federal avalia possíveis desdobramentos investigativos envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, em investigações relacionadas a supostas irregularidades envolvendo benefícios de aposentados. Risco de prisão preventiva.
Caso haja avanço judicial, o impacto político pode ser imediato — especialmente em um período de pré-campanha eleitoral.
Caso Master
Outro foco de tensão política gira em torno do chamado caso envolvendo o Banco Master e o banqueiro Daniel Vorcaro.
Nos bastidores de Brasília, comenta-se que eventuais delações ou novos desdobramentos poderiam atingir diferentes esferas de poder. O caso já circula nos corredores políticos e jurídicos como um tema potencialmente explosivo.
Entre os nomes citados em análises políticas aparecem figuras relevantes do governo e do Congresso, incluindo o ministro da Casa Civil, Rui Costa, o senador Jaques Wagner e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre.
Nuvens pesadas
Somados, esses fatores formam um cenário político carregado para o governo federal.
A combinação de desgaste administrativo, investigações sensíveis e uma disputa eleitoral cada vez mais polarizada cria um ambiente de alta tensão política.
A pesquisa do Datafolha, portanto, pode até ser recebida com reservas. Mas um ponto é inescapável: se até um instituto tradicionalmente visto como próximo ao campo governista aponta empate técnico, o alerta político no Palácio do Planalto certamente já foi acionado.