Por Francine Sevignani
Jornalista, assessora política, mãe atípica
Nos ensinaram que mulher é sinônimo de força, coragem e resistência. Que aguentamos tudo, o tempo todo, mas resistência demais vira sobrecarga
Existe uma expectativa histórica e silenciosa sobre nós, mulheres: a de que damos conta de tudo, o cansaço, a jornada dupla de trabalho, as responsabilidades que parecem não ter fim. Aguentamos a pressão, as demandas da casa, da família, dos filhos, dos pais, dos colegas. Uma força que é só nossa, como dizem, admirável, até.
Mas, o que nunca nos ensinaram foi a parar. Desacelerar e reavaliar o preço dessa força toda. Romantizar é bonitinho, mas não diminui o peso da carga.
Durante muito tempo, eu também acreditei que ser forte era dar conta de tudo. Que parar era fraqueza e que pedir ajuda era sinal de incapacidade. Como a maioria das outras mulheres, aprendi cedo a resolver problemas, a sustentar rotinas, a equilibrar a vida profissional com a maternidade, a ser a pessoa que não falha, nunca.
Até perceber que essa lógica cobra um preço alto demais.
Tudo era prioridade, menos eu. Desenvolvi depressão, ansiedade, baixa estima, perdi a motivação no trabalho, no casamento, na vida. Precisei chegar ao limite para finalmente soltar bagagens que não eram minhas e aprender a me libertar da culpa de frustrar o outro.
Existe uma palavra que costuma gerar desconforto quando associada às mulheres: egoísmo. A ideia de que uma mulher possa colocar a si mesma no centro das próprias escolhas ainda causa estranhamento e julgamento. Fomos educadas para acreditar que a boa mulher é aquela que se sacrifica — pela família, pelo trabalho, pelos outros.
Mas talvez seja justamente essa ideia que precise ser questionada.
Quando uma sociedade espera que mulheres estejam sempre disponíveis para cuidar de todos, mas não reconhece sua necessidade de cuidado, ela está normalizando uma forma de esgotamento coletivo. A romantização da “mulher que aguenta tudo” mascara um problema estrutural: a distribuição desigual do peso do cuidado.
O resultado disso aparece no corpo e na mente de milhares de mulheres que vivem exaustas, adoecidas e culpadas por não conseguirem ser tudo ao mesmo tempo.
Por isso, talvez seja hora de ressignificar o que chamamos de egoísmo.
Existe um tipo de egoísmo que não prejudica ninguém. Pelo contrário: ele protege. É o egoísmo de quem entende que sua própria vida também precisa de espaço. O egoísmo de quem aprende a colocar limites, a dizer não, a se libertar da culpa, a cuidar da própria saúde, a reconhecer que descansar não é fraqueza, mas necessidade.
Toda pessoa deveria ser o motivo das próprias escolhas. Não por indiferença ao outro, mas por consciência de que ninguém consegue sustentar o mundo ao redor quando está completamente esgotado.
Talvez o maior gesto de coragem de uma mulher hoje não seja continuar aguentando tudo. Mas parar, olhar para si mesma e reconhecer que também merece cuidado, tempo e prioridade.
Não é abandonar os outros, é parar de se abandonar.
O mundo se acostumou com a mulher que aguenta tudo. Está na hora de se acostumar com a mulher que se prioriza.