Minha querida Lucia, Lucinha,
Se você está lendo esta carta, é porque um dia abriu a minha Bíblia (aquela que ficava no bidê do meu quarto, onde a luz da tarde pousava como bênção) e encontrou esta folha dobrada, junto com um galhinho de lavanda, entre as páginas já gastas pelo tempo… Guardei-a ali como quem esconde um segredo bom, esperando que você a descobrisse quando o coração estivesse pronto.
Aqui escreve sua vó, Maria Celina. Talvez, quando seus olhos percorrerem estas linhas, os meus já estejam fechados, no entanto há amores, olhares e sensações que não se despedem da gente, apenas mudam de forma e continuam morando naquilo que somos.
Lucinha, você já percebeu que mesmo convivendo com alguém por muitos anos, nós nunca conhecemos essa pessoa por inteiro? Pense em você (será que já está casada?). Pense numa amizade de décadas e até mesmo nos seus filhos, se já os tiver. Sempre haverá um território interior que permanece fechado. Uma lembrança que nunca foi contada. Uma dor que ficou bem guardadinha. Uma reação que nasce de algo que você desconhece.
Ninguém nesta Terra conhece você por inteiro. Nem mesmo quem a ama profundamente. Sempre haverá partes da sua história que os outros não alcançam. Lágrimas que você chorou sozinha. Medos ou desejos que nunca confessou. Sonhos que ainda não ousou dizer em voz alta. Se isso é verdade – e é – então como sustentar um olhar que julga a vida do outro com tanta segurança? Como emitir sentenças a respeito de uma história que você não leu por inteiro?
Sabe, todo julgamento já nasce limitado, porque sempre haverá elementos que você ignora e batalhas na vida do outro que você nunca viu. Julgar é fechar um livro pela metade e acreditar que já entendeu o enredo.
Aprendi, com meus próprios tropeços, que todos nós somos processos. E o processo está sempre acontecendo. Você não é o erro que cometeu ontem, Lucia. Assim como o outro não é a falha que você viu hoje. Nós estamos diariamente nos tornando algo.
Quando se julga alguém, você congela essa pessoa em um instante e chama aquele instante de identidade, como se pegasse um capítulo e o transformasse em biografia. E isso é injusto, porque ninguém pode ser resumido a uma fase, apenas. Ao longo dos anos pude perceber que as pessoas crescem quando encontram misericórdia e não quando recebem rótulos. Eu me lembro das palavras de Jesus Cristo, que tantas vezes li sentada na beira desta cama: “Com a medida com que medirdes, sereis também medidos” (Marcos 4, 24).
Minha Lucinha, tem um ditado que diz: “a régua que você usa volta para você”. Assim, querida, a dureza que você distribui constrói o ambiente em que você mesma terá que respirar e a generosidade que você oferece amplia o espaço onde também poderá recomeçar. Assim, cada julgamento é uma escolha de mundo, cada ato de misericórdia é uma decisão sobre o tipo de relação que você quer viver. Quando você julga, você encerra antes do tempo e quando age com misericórdia confia que o processo continua e que a pessoa ainda está escrevendo sua própria história, ou seja, que ainda há páginas por virar.
E aqui está o que quero que você grave no coração: a medida que você usa para o outro revela o tamanho da sua consciência. Corações pequenos precisam de sentença, já corações grandes suportam processos.
Se você quiser crescer, minha neta, pare de “congelar ou cancelar” pessoas no pior momento delas. Se quiser se tornar espiritualmente forte, aprenda a olhar além da falha. No fim, não é o erro do outro que define o mundo em que você vive, mas a medida que você escolheu usar.
Todos nós estamos em construção. Sempre, enquanto respirarmos.
Você, eu (a sua vó Maria Celina), quem estiver ao seu lado. Ninguém está pronto. Ninguém está acabado. Se algum dia pensarem em mim, por favor, não me resumam às minhas falhas. Lembrem-se de que eu também fui processo. E outra coisa, meu amor, olhe para si mesma com ternura.
Querida, não confunda suavidade com fraqueza. Pense comigo: a água é suave e ainda assim molda a pedra. A misericórdia não é rendição, mas sim maturidade, força espiritual, consciência grande. Você é maior que qualquer momento ruim e do que qualquer julgamento que façam sobre você. É maior, inclusive, que seus próprios erros.
Levante-se sempre.
Recomece quantas vezes for preciso.
E se em algum momento duvidar de si, imagine minhas mãos segurando as suas e escute minha voz dizendo: “Você é processo, e processo é movimento; vida”. Escolha ser grande por dentro. Sempre. Porque no fim, minha Lucinha, viver não se trata sobre estar certa: mas sobre ser inteira.
Com amor,
Sua vó, Maria Celina.