A pergunta do título parece deveras simples (simplória?!?), mas arvora-se a carregar camadas profundas de desconforto: sim, afinal, a terceira idade (a dos 60+) precisa, também, aprender Inteligência Artificial (IA)?
A pergunta baseia-se na seguinte realidade incontestável, segundo a qual, depois de uma vida inteira acumulando experiência prática, erros e acertos, tombos e vitórias, ainda seria necessário incorporar mais essa competência ao repertório de um idoso. Já não bastam os celulares, aplicativos, plataformas bancárias, comandos eletrônicos em carros, portarias digitais em prédios, sistemas de saúde online e tantas outras “coisitas” tecnológicas, muitas advindas da IA, que já exigem esforço constante de adaptação?
Não se estará, afinal, sobrecarregando mentes com recursos extras, como o aprendizado da IA, de utilidade aparentemente duvidosa?
Vale, aqui, o alerta de que essa não é apenas uma questão tecnológica, mas muito mais. É uma questão humana, ética e civilizatória, tocando no modo como a sociedade enxerga o envelhecimento, no valor que atribui à experiência e na obsessão contemporânea por novidade, velocidade e atualização permanente.
Enfim, em um mundo que trata o “novo” como virtude moral, quem não acompanha o ritmo é rapidamente rotulado como ultrapassado e, quando esse rótulo recai sobre os idosos, o problema deixa de ser técnico e passa a ser moral. Assim, antes de responder se a terceira idade precisa aprender IA, é preciso dissecar a própria pergunta. Precisa para quê? Para quem? Em quais condições? Com qual profundidade? E, sobretudo, a serviço de quais objetivos humanos?
Ademais, a terceira idade não é um grupo homogêneo. Há idosos curiosos, intelectualmente ativos, desejosos de compreender o mundo contemporâneo e dialogar com ele. Há outros, contudo, cansados da hiperestimulação, saturados de telas, que buscam simplicidade, silêncio e tempo desacelerado.
Ou seja, há dentre os idosos, quem veja na tecnologia uma aliada da autonomia; há quem a perceba como mais um fator de exclusão. Assim, tratar todos como se tivessem as mesmas necessidades, interesses e capacidades é um erro conceitual e uma injustiça prática.
Para contextualizar toda essa análise, é importante reconhecer algo frequentemente ignorado: essa geração (60+ e, até, 70+) já aprendeu muito mais do que se costuma admitir. Muitos nasceram em um mundo radicalmente analógico. Viram o telefone fixo chegar, depois desaparecer. Aprenderam a escrever cartas à mão, a esperar respostas, a lidar com a ausência. Testemunharam a chegada da televisão, do computador, da internet, do celular, dos aplicativos, das plataformas digitais. Adaptaram-se a caixas eletrônicos, cartões magnéticos, sistemas bancários online, declarações digitais, agendamentos eletrônicos, carros cheios de sensores e imóveis comandados por telas.
Cada uma dessas transições exigiu esforço cognitivo, paciência, reaprendizado e, muitas vezes, frustração. Em resumo, não foram poucas as vezes em que a tecnologia foi apresentada sem consideração pelo usuário mais idoso, com interfaces confusas, letras pequenas, linguagem técnica e atualizações constantes que mudavam tudo de lugar. Ou seja, a ideia de que idosos resistem à tecnologia por teimosia ignora o custo emocional dessas adaptações sucessivas.
Nesse contexto, o aprendizado da Inteligência Artificial surge como mais um degrau em uma escada que parece não ter fim. Para muitos, a sensação é legitimamente preocupante: mais um sistema a entender, mais uma lógica invisível controlando processos cotidianos, mais uma exigência travestida de modernidade.
Não seria razoável, então, dizer “chega”?!?