“♫ Eu quero dizer/ Agora o oposto do que eu disse antes/ Eu prefiro ser/ Essa metamorfose ambulante/ Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo/ Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo/ Sobre o que é o amor/ Sobre o que eu nem sei quem sou” (Metamorfose ambulante; Raul Seixas)
Eu tenho um grupo de WhatsApp com três amigos (Cícero, Darwinn e Murara), os quais conheci já na vida adulta, onde podemos discutir de tudo, criticando a direita e a esquerda, pegando no pé dos times uns dos outros (um escapa, pois, felizardo, não torce para nenhum), viajando filosoficamente, conjecturando sobre direito, negócios, religião, futuro, na realidade sobre quase tudo, e, o melhor, sem riscos de cancelamento ou linchamento virtual.
Quando discordamos, é só isso mesmo: discordamos. Às vezes as discordâncias ecoam ou vão e voltam, mas ali no nosso mundo paralelo do grupo que, sugestivamente, tem o nome de Provocações.
E nós, há alguns anos, estamos fazendo lives sobre os mais diversos assuntos, sempre tentando dar um pouco de humor (embora nenhum de nós teria sucesso como humorista) em assuntos eventualmente mais densos. Já falamos, nessas lives, sobre os bloqueios do Telegram, aplicativos de relacionamento, liberdade de expressão, imortalidade humana e por aí vai. Quando nosso pequeno e seleto público online participa, os papos ficam ainda mais divertidos.
Nossa censura
Como falei ali no início, podemos conversar e opinar sobre o que quisermos, no nosso grupo, que o máximo que vai acontecer é um ou outro ou todos os outros discordarem. E normalmente, é uma discordância fundamentada. E sempre, uma discordância educada. E nunca, o “discordado” fica emburrado. Várias vezes, não se chega a um consenso; outras alguém reflete melhor e muda de opinião.
É assim que funciona a democracia, ou deveria funcionar. Tese, antítese, síntese. Todos melhoram seus argumentos sobre o tema, crescem com o aprendizado e mantêm o pé na sua opinião, mudam parcialmente ou se rendem aos argumentos da outra parte.
Lindo, maravilhoso; viva a liberdade de expressão!
Milícias
Infelizmente, nas redes sociais, nos aplicativos de mensagens e na internet em geral, não é assim que tem funcionado. Já falei aqui, mas é necessário repetir. As pessoas perderam a noção do bom senso, do respeito, da educação. Quem discorda, vira inimigo. Os ataques não são ao tema ou objeto da discussão, são ao interlocutor.
Quando os discordantes rasos se unem, então, vira uma milícia digital. Apoiam-se em sua ignorância, lançam hashtags (novamente contra os interlocutores mais do que contra as ideias), criam grupos, confabulam em seu mundo paralelo de anencefalia coletiva.
Essas pessoas que querem calar quem pensa diferente, seja com agressões virulentas individuais, seja em turba, e muitas vezes com ameaças sérias que extrapolam o mundo virtual, são, em regra (não vamos generalizar), as mesmas que criticam os tribunais por cerceamento ao direito de liberdade de expressão (tenham, esses órgãos jurisdicionais, razão ou não – e entendam claramente que não estou aqui defendendo juízes de casos pontuais. Infelizmente chegamos ao ponto de ter que explicar raciocínios, até quando escritos e óbvios, para evitar dissabores).
Vê-se, em muitos casos, censores internéticos escondidos atrás de suas telas que se julgam defensores da liberdade e da sociedade livre, mas que querem censurar qualquer opinião divergente. Dá até para imaginar o que aconteceria se essa gente, ou melhor, esses @@ tivessem um pingo de poder nas mãos.
As pessoas estão perdendo o poder de refletir, reféns que estão da economia da atenção, e, com isso, não conseguem mais dialogar, contemporizar e, consequentemente, evoluir. Isso já aconteceu pouco menos de um século atrás, por outros meios. Será que a sociedade vai aguardar a repetição?