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Com 145% em 15 anos, Inflação segue corroendo poder de compra do catarinense e silenciosamente minando renda

Foto: José Cruz/Agência Brasil

Por: Pedro Leal

16/02/2026 - 15:02 - Atualizada em: 16/02/2026 - 15:26

Ao longo dos últimos 15 a 25 anos, a inflação foi corroendo o poder de compra das famílias brasileiras de forma contínua – apenas nos últimos 15 anos, entre 2010 e 2025, a inflação acumulada, medida pelo Índice de Preços para o Consumidor Amplo (IPCA) foi de 145,338% – isso significa que para hoje ter o mesmo poder de compra que R$ 100 tinham em 2010, seriam necessários R$ 245,33.

Quem recebia a média salarial catarinense em 2010, de 2,8 salários mínimos à época (R$ 510) – ou seja, que tinha um salário de R$ 1.428 em 2010 – precisaria de um salário de R$ 3.503,44 para ter o mesmo poder de compra.

Com um salário maior, de R$ 4.000 em 2010, seriam necessários R$ 9.815,00 para ter o mesmo poder aquisitivo.

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Em alguns produtos, a inflação se vê ainda mais perceptível. A gasolina comum, por exemplo, no mesmo período passou de uma média de R$ 2,650 o litro nas revendas do estado para R$ 6,550 – 147% de aumento – chegando a um pico de R$ 7,180 em 2022, 170% superior ao valor de 15 anos atrás.

Segundo a economista da Fecomércio SC, Edilene Cavalcante, Isso significa que, mesmo quando a renda aumenta, muitas vezes ela não acompanha o ritmo real de alta dos preços, especialmente nos itens essenciais. “Na prática, o consumidor sente isso no dia a dia quando percebe que o mesmo valor que antes enchia um carrinho de supermercado hoje compra bem menos, e que despesas como alimentação, energia, transporte, aluguel e medicamentos passaram a ocupar uma fatia cada vez maior do orçamento”, explica.

Essa inflação foi impulsionada por uma combinação de fatores, como o aumento de custos de produção e logística, oscilações do dólar, choques externos (como crises internacionais e a pandemia), além de períodos de instabilidade econômica que afetam expectativas e pressionam preços.

“O Brasil também é um país muito sensível à inflação de alimentos e combustíveis, que têm impacto rápido e direto no bolso da população e acabam se espalhando para outros setores da economia. Ou seja, também temos choques de oferta (redução da oferta de determinados produtos, fazendo com que os bens fiquem escassos e levando ao aumento do preço)”, destaca.

Impactos no comércio

Para o comércio, esse cenário é especialmente desafiador, porque quando o custo de vida sobe, o consumidor tende a reduzir compras, adiar consumo e priorizar o básico. Isso diminui o volume de vendas, aumenta a cautela das famílias e fortalece a busca por promoções, marcas mais baratas e parcelamentos. Ao mesmo tempo, o próprio setor também enfrenta custos maiores, como energia, aluguel, reposição de estoque e transporte, o que reduz margens e dificulta o repasse total dos aumentos para o preço final.

Em Santa Catarina, por exemplo, a parcela de famílias inadimplentes chegou a 33,1% em outubro de 2025, maior nível da série histórica. “Isso pode ser explicado, em parte, pela inflação do período. Com os preços mais altos, as famílias têm cada vez menos recursos financeiros para honrar suas dívidas, deixando de pagá-las para direcionar tais recursos para o consumo imediato. Ao mesmo tempo, o empresário do varejo, em meio ao cenário de aumento dos juros observado em 2025 e da inflação elevada, ficou cada vez menos confiante. O índice que monitora a confiança de tais empresários chegou a 93,6 pontos em setembro de 2025 – pior resultado para o mês desde 2020. A queda da confiança ocorreu justamente pela percepção de piora das condições atuais (juros altos e inflação elevada)”.

“Por isso, é importante que o consumidor fique atento não apenas ao valor nominal da renda, mas ao seu poder de compra real. Ter mais dinheiro hoje não significa necessariamente estar em melhor situação do que há 10 anos, porque o que importa é quanto esse dinheiro consegue comprar”, frisa Edilene.

A inflação, quando acumulada por vários anos, faz com que o salário precise crescer muito apenas para manter o mesmo padrão de vida — e é exatamente por isso que tantas famílias sentem que “ganham mais”, mas vivem com o orçamento cada vez mais apertado. “É importante monitorar o preço de maneira regular. Na alimentação, por exemplo, buscar produtos da estação, produtos em promoção – para que a capacidade de comprar mais bens seja mantida”.

Poder de compra não foi mantido, frisa consultor

O engenheiro e consultor financeiro Beny Fard, da B8 Partners, frisa que desde o Plano Real em 1994, o Brasil saiu da do cenário caótico de hiperinflação, mas isso não significou manutenção de poder de compra. “Se considerarmos dados do IPCA (que é calculado mensalmente pelo IBGE) e analisarmos a inflação acumulada desde 1994, esse numero supera a casa dos 700%. Na prática, R$ 1 em 1994 equivale hoje a algo próximo de 10 centavos, ou seja, o Real perdeu cerca de 90% do seu poder de compra nestas ultimas três décadas”.

Ele destaca para fins de comparação que nos Estados Unidos a inflação (medida pelo CPI), “acumulou algo próximo dos 100% neste mesmo período de 30 anos, o que significa que o dólar perdeu cerca de metade do seu poder de compra desde 1994 (USD 1 vale hoje USD 50 centavos), uma deterioração muito menor do que a brasileira”.

“E isso infelizmente não é apenas estatística, é realidade… se observarmos os dados do DIEESE, o salario mínimo que hoje é de R$ 1.621 deveria ser de ~R$ 7mil para fazer frente às despesas para sustentar uma família de quatro pessoas (2 adultos e 2 crianças), com base no custo da cesta básica, moradia, alimentação, saúde, educação, transporte, vestuário, lazer e previdência”.

Ele adiciona que a inflação não é só aumento de preço, mas uma redução silenciosa da renda. “Trazendo para nossa realidade estadual, esse efeito foi aumentado em algumas regiões de santa catarina, como em Florianópolis, Joinville e Blumenau, onde houve forte valorização imobiliária nos últimos anos, especialmente no pós pandemia, em função de do efeito de migrações internas, do trabalho remoto, da busca por qualidade de vida e do crescimento do setor de tecnologia, sendo que em diversos bairros dessas cidades os aluguéis subiram bem acima da inflação média nacional (acima dos 180%), colocando ainda mais pressão sobre o custo de moradia”, explica.

Vários itens delicados ao orçamento familiar, como combustíveis, planos de saúde e alimentação tiveram picos de alta superiores ao IPCA em vários momentos dos últimos 15 anos, reduzindo a renda disponível.

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Pedro Leal

Analista de mercado e mestre em jornalismo (universidades de Swansea, País de Gales, e Aarhus, Dinamarca).