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Merisio volta ao tabuleiro eleitoral

Por: Claudio Prisco Paraíso

03/02/2026 - 06:02

Se há uma característica que define Gelson Merisio na política catarinense, é a capacidade de articulação. Foi assim na Assembleia Legislativa, foi assim na construção de sua candidatura ao governo em 2018 e é assim agora, no movimento de retorno ao centro do debate eleitoral, sinalizado de forma clara em sua festa de aniversário, transformada em ato político.

Merisio construiu sua trajetória como deputado estadual por três mandatos e presidiu a Alesc em três oportunidades. Ainda durante o ciclo dos governos Raimundo Colombo, consolidou influência política a ponto de viabilizar, com rapidez e estrutura, sua candidatura ao governo pelo PSD. Naquele período, havia uma combinação favorável: ele no comando do Legislativo e seu cunhado, o advogado Antônio Gavazzoni, em posição estratégica na Secretaria da Fazenda, com forte protagonismo na condução administrativa do Estado. Essa engrenagem política facilitou a montagem de um projeto majoritário.

Mas esse mesmo movimento ajudou a implodir a aliança histórica entre PSD e MDB.

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A parceria

Até 2018, Raimundo Colombo havia vencido todas as disputas majoritárias com o MDB ao seu lado — em 2006, como senador na chapa de Luiz Henrique; e em 2010 e 2014, como governador, tendo Eduardo Pinho Moreira de vice. A parceria era um dos pilares da estabilidade política do período.

A ruptura

O rompimento, porém, ocorreu quando Merisio decidiu manter sua candidatura ao governo em 2018, mesmo com o MDB já tendo como nome natural o deputado federal Mauro Mariani. O que poderia ser uma transição negociada virou confronto aberto. A divisão enfraqueceu os dois lados e abriu espaço para a onda bolsonarista que acabou levando Carlos Moisés ao segundo turno, deixando Mariani de fora, com Merisio fazendo menos votos do que no primeiro round.

Novo ciclo

Aquela eleição não apenas encerrou um ciclo de poder como também isolou Gelson Merisio politicamente. Ele se afastou da vida pública, voltou-se à iniciativa privada e passou a atuar como conselheiro empresarial, mantendo, porém, a interlocução política nos bastidores.

O retorno pelo campo da esquerda

O cenário agora é outro. O Merisio que ressurge não é mais o líder de centro-direita de 2018. Ele retorna com forte inclinação a integrar um projeto de centro-esquerda, muito provavelmente pelo PSB, alinhado ao palanque do presidente Lula em Santa Catarina.

Cabeça

Nos bastidores, seu nome é tratado como peça-chave na montagem de uma chapa em que disputaria o governo, enquanto Décio Lima buscaria o Senado. A articulação não é improvisada: Merisio teve papel relevante na engenharia política da campanha de Décio em 2022, quando o PT chegou pela primeira vez ao segundo turno em Santa Catarina.

Recado

A festa de aniversário, portanto, funcionou como vitrine desse novo posicionamento — e como demonstração de que ele mantém trânsito entre diferentes campos políticos.

Escola de articulação

A habilidade de Merisio não surgiu por acaso. Ao chegar à Assembleia, aproximou-se de Júlio Garcia, uma das figuras mais experientes do Parlamento catarinense, conhecido justamente pela capacidade de costura política. Júlio, por sua vez, foi formado na tradição de lideranças como Jorge Bornhausen, referência histórica da articulação de bastidores em Santa Catarina e no Brasil. Merisio é herdeiro direto dessa linhagem de operadores políticos.

Esse repertório explica como, mesmo após anos fora de mandatos, ele consegue voltar ao centro das conversas com rapidez e densidade.

MDB: ponte improvável

Apesar de ter boa interlocução com setores emedebistas, a filiação de Merisio ao MDB é considerada inviável. O episódio de 2018 ainda pesa, e a maior parte da cúpula do partido hoje mantém alinhamento com o governador Jorginho Mello, mesmo sem participação formal na chapa majoritária.

Divisão

As bases do MDB vão se pulverizar em relação às várias candidaturas, e a estrutura de poder interna também está fracionada. Parte tende a acompanhar o governo; outra pode buscar alternativas, seja com João Rodrigues, seja com Merisio. Nesse contexto, uma candidatura própria do MDB ao governo é vista como pouco provável ou, se ocorrer, com alto risco de isolamento.

Reinvenção

O movimento de Gelson Merisio é, ao mesmo tempo, retorno e reinvenção. Ele reaparece com o mesmo talento para articulação que marcou sua ascensão, mas agora em um campo ideológico diferente e em um cenário muito mais fragmentado.

Desafio

Se conseguirá transformar essa habilidade em viabilidade eleitoral, é uma equação que dependerá do ambiente nacional, da consolidação do palanque de esquerda no Estado e da capacidade de unir forças que historicamente caminharam separadas. O que já é certo é que Merisio deixou de ser personagem do passado. Voltou a ser ator do presente — e potencial protagonista de 2026.

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