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Seu filho tem 12 anos? Tem gente de olho nele…

Foto: Freepik

Por: Raphael Rocha Lopes

28/01/2026 - 07:01

“♫ A planet of playthings/ We dance on the strings/ Of powers we cannot perceive/ The stars aren’t aligned/ Or the gods are malign/ Blame is better to give than receive// You can choose a ready guide/ In some celestial voice/ If you choose not to decide/ You still have made a choice” (Freewill; Rush)

Nos últimos dias, circularam matérias relatando um episódio que, à primeira vista, pode parecer banal: uma criança de 12 anos teria recebido um e-mail do Google informando que, ao completar 13, poderia passar a ter “independência” sobre sua conta, inclusive encerrando a supervisão parental (um dispositivo no aplicativo que permite que os pais acompanhem e limitem acessos). O detalhe inquietante não está na regra em si mas na forma como isso foi feito e no que isso revela sobre a lógica dessas empresas.

Quando uma plataforma se comunica diretamente com uma criança para tratar de autonomia digital, sem mediação clara e inequívoca dos pais, algo se rompe, indiscutivelmente. Não é apenas uma falha de comunicação. É uma escolha. Uma escolha da plataforma, obviamente. E escolhas revelam prioridades.

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Pais, os figurantes

As plataformas querem que os pais sejam meros figurantes. Mas pais não são, ou não deveriam ser, quando se trata da vida digital de seus filhos. Eles são responsáveis legais, afetivos e éticos. Ao “avisar” uma criança que ela poderá, em breve, dispensar a supervisão adulta, a plataforma cria uma relação paralela, quase um sussurro algorítmico: “aguente só mais um pouco”. Isso não é educação digital. É deslealdade, no mínimo (muito mais que isso, na verdade).

As grandes plataformas gostam de afirmar que investem pesado em segurança infantil, bem-estar digital e proteção de dados. Em notas públicas, o Google sustenta que o sistema Family Link permite que os pais continuem acompanhando e que nenhuma mudança relevante ocorre sem notificação. Tecnicamente, pode até ser verdade. Eticamente, é insuficiente. Porque não basta avisar; é preciso respeitar a hierarquia de responsabilidades.

Há uma diferença enorme entre informar os responsáveis e estimular a criança a enxergar a supervisão como algo provisório, descartável ou inconveniente. O risco aqui não é apenas de acesso a conteúdos inadequados, mas de normalizar a ideia de que plataformas sabem mais ou se importam mais do que os próprios pais.

Talvez alguns pais não tenham se dado conta, mas isso é extremamente grave! Estão querendo sobrepor a sua autoridade e criar “segredinhos” com crianças e pré-adolescentes.

Crianças como ativos financeiros

Esse tipo de comportamento se insere em um contexto mais amplo: o da economia da atenção. Crianças e adolescentes não são apenas usuários; são ativos valiosos para engajamento, coleta de dados e fidelização de longo prazo. Quanto mais cedo se cria a sensação de autonomia digital plena, mais cedo se estabelece uma relação direta, sem filtros, sem adultos no meio.

Isso é especialmente preocupante em um ambiente já saturado por riscos: assédio, exploração sexual, golpes, desafios perigosos, manipulações algorítmicas e conteúdos que adultos, muitas vezes, mal conseguem processar. Esperar que uma criança de 13 anos tenha maturidade para navegar sozinha por esse ecossistema é, no mínimo, ingenuidade. No máximo, irresponsabilidade. Tenho minha opinião em que ponta estão as redes sociais e outras plataformas.

Não se trata de negar autonomia progressiva aos jovens, nem de demonizar a tecnologia. Trata-se de exigir das plataformas coerência entre discurso e prática, ou seja, o básico. Se a segurança das crianças é prioridade, então os pais devem ser parceiros centrais, não obstáculos a serem contornados por e-mails educadamente persuasivos.

Educação digital se constrói com transparência, diálogo e corresponsabilidade. Quando uma empresa escolhe falar primeiro com a criança e só depois, talvez, com os pais, ela deixa claro o que quer. A proteção infantil fica em segundo plano, soterrada sob termos de uso, políticas internas e uma pressa injustificável por mais autonomia, mais dados e mais tempo de tela.

O movimento mundial responsável de proibição de redes sociais para crianças e pré-adolescentes não está aí à toa.

Pais, no mundo digital, não basta confiar. É preciso vigiar e cobrar, pois quando a plataforma começa a educar seu filho sem você, o problema já não é técnico. É profundamente humano.

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Raphael Rocha Lopes

Advogado, autor, professor e palestrante focado na transformação digital da sociedade. Especializado em Direito Civil e atuante no Direito Digital e Empresarial, Raphael Rocha Lopes versa sobre as consequências da transformação digital no comportamento da sociedade e no direito digital. É professor da Faculdade de Direito do Centro Universitário Católica Santa Catarina e membro da Associação Brasileira de Lawtechs e Legaltechs.