Conta-se que, quando Roma expandia seus domínios pela costa do Adriático, Dobrovnik, na Croácia, escolheu uma forma de não ser invadida e manter sua liberdade: a diplomacia inteligente. Sabendo que o sal era um bem extremamente valioso para os romanos, não só para temperar alimentos, mas para conservação, medicina, rituais e, até, como moeda de pagamento (daí a palavra “salário”), em vez de resistir militarmente, o povo de Dobrovnik oferecia grandes quantidades de sal aos romanos, como tributo regular. Em troca, Roma não invadia suas terras, respeitando certa autonomia local e garantindo proteção indireta contra outros povos. Ou seja, a liberdade era “comprada” com sal, o ouro do momento e local.
Não existe um autor confirmado para a frase do título deste artigo (“a liberdade vale mais que todo o ouro do mundo”) e nem da que está estampada, em latim, na camiseta (“nem tudo está bem se a liberdade é vendida por ouro”), mas elas bem resumem uma adaptação moderna do espírito de vários aforismos sobre o valor da liberdade, em comparação com riquezas materiais e ressoam, de forma pungente, no contexto geopolítico atual, onde povos e nações lutam contra a repressão, restrições econômicas e violências. Sim, em tais cenários, a busca por liberdade sempre desafia interesses terceiros e lembra que, para muitos, nada é mais precioso do que viver com a dignidade reciprocamente respeitada, ou seja, viver numa sociedade em que haja “liberdade com mútua responsabilidade”.
Já, no campo pessoal, é a liberdade (quando, com saúde mental e suficiente mobilidade) o principal privilégio de se envelhecer: poder mudar de rumo, sem pedir licença a ninguém. Sim, a maturidade com audácia, que só os anos ensinam, permite trocar de paixão, de cidade, de profissão, de estilo, de amor. Enfim, reinventar quase tudo, pois a idade não é uma sentença, é uma ferramenta, é até, um convite.
Enfim, voltando à máxima “a liberdade vale mais que todo o ouro do mundo”, lembremo-nos desta liberdade ainda mais sutil, preciosa e de contornos especiais: a de se pensar nas versões que ainda se pode ser nas chamadas “penúltima” e “última idade”. Sim, como já não há tempo, energia ou mesmo sentido em “perseguir o ouro” que não foi conquistado antes, o acúmulo material perde a centralidade e o que emerge é a possibilidade de uma escolha interior: quem ainda posso me tornar, apesar de tudo ?!? Aqui, liberdade não como ausência de limites, mas como consciência deles e de que o tempo, finito, só ‘autoriza’ escolhas mais honestas e menos condicionadas pela expectativa alheia.
Não se trata de resignação, mas de lucidez, pois se “o ouro” já não é a meta, abre-se espaço para outros valores: sentido, legado, reconciliação, coerência.
Em outras palavras, pensar-se de novo, também em idade avançada, é um ato de coragem e exercer essa liberdade talvez seja a forma mais elevada de “riqueza” que ainda se pode conquistar. E essa liberdade permite revisitar escolhas, reinterpretar fracassos e dar novos significados ao que parecia definitivo. O tempo, antes visto como inimigo, passa a ser critério de qualidade, não havendo mais espaço para personagens sociais vazios, nem para projetos que não dialogam com a própria consciência. Assim, pensar nas versões que ainda se pode ser é um exercício de dignidade, não de nostalgia.
Em resumo, quando o “ouro” já não seduz, valores como verdade, integridade e sentido ganham centralidade. E talvez seja justamente nesse estágio que a liberdade se revele em sua forma mais plena: a liberdade de ser, sem adiamentos.