Clique aqui e receba as notícias no WhatsApp

Whatsapp

Arte entre túmulos: coveiro inicia série de esculturas para transformar o cemitério de Schroeder

Foto: Divulgação

Por: Gabriel JR

18/01/2026 - 11:01 - Atualizada em: 18/01/2026 - 11:13

O silêncio presente no Cemitério Municipal de Schroeder ganhou novos significados a partir da sensibilidade de Pablo Luis Nicoline, de 39 anos. Há uma década atuando como coveiro no município, ele encontrou na arte uma forma de expressar sentimentos, ressignificar o luto e oferecer acolhimento às famílias que enfrentam a perda de entes queridos.

Morador do bairro Vila Amizade, em Guaramirim, Pablo é servidor público em Schroeder e conhecido como “Pablo Coveiro”. Diagnosticado com transtorno do espectro autista (TEA) nível 1, ele explica que o hiperfoco foi essencial para o aprendizado da escultura, técnica desenvolvida de maneira totalmente autodidata ao longo do último ano.

Após meses de estudo, dedicação e experimentação, Pablo se aproxima da conclusão de sua primeira obra, moldada em cimento. A escultura marca o início de um projeto mais amplo: uma série de 12 peças que ele pretende instalar no próprio cemitério, ocupando áreas hoje abandonadas e transformando o espaço em um ambiente de memória, respeito e reflexão.

Clique e assine o Jornal O Correio do Povo!

A iniciativa nasceu da convivência diária em um ambiente marcado pela despedida, mas também pela humanidade. “Quero mostrar que, mesmo em um lugar associado à dor, é possível encontrar cuidado, empatia e beleza”, resume.

Foto: Divulgação

A primeira escultura, que deve ser finalizada nos próximos dias, representa para Pablo um símbolo de superação pessoal e entrega. O projeto une trabalho, fé e serviço público, com o propósito de transformar o luto em memória e respeito.

A decisão de trabalhar como coveiro surgiu após experiências profissionais frustradas e, principalmente, após a morte da mãe. “A escolha veio por dois fatores: esse meu jeito e, principalmente, a morte da minha mãe. Naquele dia, ninguém conseguia me alcançar com palavras. Foi no cemitério que entendi o poder de um olhar. Um simples olhar de um humilde coveiro disse tudo o que ninguém mais conseguiu.”

A escultura surgiu como resposta à dificuldade de expressar sentimentos em palavras. “Quis fazer algo que falasse com a dor das pessoas de um jeito que eu não consigo falar. Escrevi minha primeira fábula sobre o luto, ficou linda, mas faltava algo. Então senti que precisava esculpir. E esculpi.”

Sem formação artística formal, Pablo se dedicou inteiramente ao aprendizado por conta própria. “Sempre amei arte e música, mas nunca fui artista. Comprei livros de anatomia humana, ferramentas e me entreguei ao hiperfoco. Muitas vezes acordei de madrugada com ideias para superar minhas próprias limitações técnicas. Superei muitas dificuldades e cheguei a esse resultado. Espero que não seja só sorte de principiante, porque já tenho outra fábula pronta, esperando por outra estátua.”

Foto: Divulgação

A obra, intitulada “O Luto”, nasceu da observação das reações humanas diante da perda. “O título ‘O Luto’ veio de ver como as pessoas ficam perdidas quando perdem alguém. Quando a pessoa está viva, o amor tem destino. Quando morre, o amor fica vagando até entender que o luto será sua companhia eterna.”

As próximas obras já estão planejadas e devem abordar novos temas. “A próxima já tem título, projeto e fábula. Vai falar sobre o tempo – passado, presente e futuro – e como eles podem ser bons ou ruins, dependendo de como interagimos. Será um homem observando a areia de uma ampulheta escorrer por entre os dedos. Um grande desafio.”

Cada escultura deve levar cerca de um ano para ser concluída. “Cada peça deve levar cerca de um ano, tanto pela dificuldade técnica quanto pela questão financeira. A primeira eu custeei sozinho. A segunda será mais cara. Encontrei pessoas de bom coração dispostas a ajudar, mas ainda é pouco perto do tamanho do projeto.”

A intenção é que as obras permaneçam no cemitério. “Estou registrando a autoria, mas quero que fiquem aqui. Quero que esse cemitério se torne algo especial, que as pessoas vejam a vida e a morte pelos olhos de um coveiro. Que entendam melhor a morte para viver melhor a vida.”

Clique aqui e receba as notícias no WhatsApp

Whatsapp

Gabriel JR

Repórter e radialista com 15 anos de experiência na área de comunicação