Incomodado com a venda de mercadorias nas calçadas de Canasvieiras, no Norte da Ilha, exercida por imigrantes africanos, um comerciante decidiu expor os seus produtos no lado de fora do estabelecimento. A atitude do microempresário, que ocorreu na manhã desta segunda-feira (19), instigou os demais lojistas a protestarem contra a presença do comércio senegalês em frente às lojas.
O movimento, que começou às 18h, próximo à esquina entre as ruas na esquina das ruas Madre Maria Vilac e Hypólito Gregório Pereira, foi marcado por tensão e discórdia. Senegaleses sentiram-se ofendidos com a atitude dos comerciantes brasileiros. Turistas se sensibilizaram e entraram na discussão. Comerciantes ergueram cartazes que pediam mais fiscalização da Prefeitura Municipal de Florianópolis. O tumulto só terminou 40 minutos depois, quando viaturas da Polícia Militar chegaram.
"Nunca foi tomada uma providencia sobre essa situação. Eles (os senegaleses) poderiam até fazer um negócio deles organizado, desde que não fosse diante de nós. Pagamos aluguel e impostos, ninguém tem o direito de armar (comércio) aqui", reivindicou o comerciante Luiz Gonzaga Bruggmann, 60 anos.
A comunidade senegalesa uniu-se diante dos lojistas para defender o espaço do comércio de rua. Com um dedo da mão machucado, um deles afirmou ter sido ferido com uma faca por um dos comerciantes. Com dificuldade para falar o português, o africano Alexandre Diop, 27 anos, disse que, desde que chegou ao Brasil, há três anos, nunca recebeu assistência.
"Nós trabalhamos aqui todos os dias. Não queremos brigar, só trabalhar. Mas sofremos muito racismo, eles não gostam de nós", rebateu o senegalês.
Uma turista de Brasília, que voltava da praia, interferiu na discussão. Ana Karine Tertuliano, 32 anos, entrou no meio do tumulto, levantou o tom da voz e conquistou a atenção de quem protestava. A mulher interpretou a manifestação como sendo de cunho racial e saiu em defesa dos imigrantes africanos que afirmam sofrer preconceito por causa da cor.
"Se fosse italiano vendendo ninguém falaria nada. Vocês estão vendo os senegaleses mendigando ou pedindo alguma coisa? Eu peço perdão pelo preconceito dos brasileiros, nem todos são racistas, eu os respeito", clamou Ana Karine.
Já o morador de Canasvieiras, Luiz Souza, 42 anos, não concorda com a venda de mercadorias na calçada, pois diz que atrapalha não só o comércio local, mas a mobilidade. Souza sugere a construção de um espaço para o trabalho dos imigrantes.
"Acho que não deveriam permitir o comércio na calçada, ninguém consegue caminhar aqui, tranca tudo. Deveria ser feito um camelódromo onde eles possam trabalhar", opinou o morador.
A secretária municipal de Segurança Pública, Maryanne Mattos, falou com a reportagem do OCP em nome da Prefeitura. Ela afirma que as fiscalizações ocorrem diariamente e garante que novas ações conjuntas com outros órgãos de fiscalizações serão realizadas.
Em reunião que ocorreu na semana passada entre Prefeitura, CDL, ACIJ, Receita Federal, Polícia Rodoviária Federal, Polícia Militar e Guarda Municipal, foram discutidas ações de segurança, mas nenhuma solução social foi apresentada.
"A questão do imigrante não é um assunto que a Prefeitura vai tratar sozinha. Essa discussão tem que ser integrada com outros órgãos. O que nós vamos fazer é continuar com a fiscalização para que não seja realizado esse tipo de comércio em Florianópolis. Vamos investigar quem está trazendo essa mercadoria pirateada para o município", disse Maryanne.
Luciano Leite da Silva Filho, coordenador do Centro de Referência ao Imigrante (Crai) - inaugurado em fevereiro deste ano, disse que os profissionais do centro ainda estão se inteirando do caso, uma vez que o serviço é recente no Estado. Até então, o trabalho de atendimento aos imigrantes era prestado voluntariamente pela Pastoral do Migrante da Arquidiocese de Florianópolis.