O suicídio deixa de ser tabu quando a sociedade se depara com situações de desespero, tentativa ou mesmo de morte entre seus entes mais queridos. Ou, ainda, quando a dor e o sentimento de impotência ultrapassam a própria barreira de sanidade. A única forma de combatê-lo e evitar tragédias é através da prevenção. Mas, não há combate sem esclarecimentos sobre o assunto e sem descobrir como ajudar ou buscar apoio. É preciso atenção e, em setembro, o sinal amarelo se acende para esse debate.
Dados oficiais divulgados pelo Centro de Valorização da Vida (CVV) afirmam que todos os dias pelo menos 32 brasileiros cometem suicídio. A taxa é superior às de vítimas da AIDS e da maioria dos tipos de câncer. Segundo a Associação Internacional de Prevenção do Suicídio (IASP, em inglês), há 25 vezes mais tentativas, o que significa que 830 brasileiros buscam a morte diariamente, média de uma pessoa a cada dois minutos.
“O suicídio tem sido um mal silencioso, justamente porque a maioria das pessoas foge do assunto e, por medo ou desconhecimento, não vê os sinais de que uma pessoa próxima está com ideias suicidas. Por isso, é muito importante quebrar o tabu e falar sobre o assunto, esclarecendo, conscientizando e estimulando a prevenção para reverter o quadro”, aponta o coordenador do posto do CVV de Jaraguá do Sul, Isoé Klafke.
Coordenador do CVV em Jaraguá do Sul, Isoé Klafke diz que falar sobre suicídio é fundamental para evitar tragédias | Foto Eduardo Montecino/OCP
Desde 1962 no Brasil, e em Jaraguá do Sul há 12 anos, o CVV atua gratuitamente na valorização da vida, oferecendo apoio emocional a quem precisa e assim prevenindo o suicídio. Está à frente do movimento iniciado em 2014 chamado Setembro Amarelo que, nos mesmos moldes do Outubro Rosa e Novembro Azul, busca divulgar a causa intensamente durante o mês, tendo como principal objetivo esclarecer e prevenir.
Até 31 de agosto desse ano, o posto local do CVV realizou 1.840 atendimentos. Durante os 12 meses de 2016, foram 1.500, o que representa uma busca mais intensa por auxílio. Os dados sobre suicídio são mais difíceis de obter, segundo a equipe da entidade. Sabe-se que em 2015 dez pessoas tiraram a própria vida em Jaraguá do Sul.
UM PERIGO QUE ATINGE QUALQUER FAIXA ETÁRIA
Em Jaraguá do Sul, existe uma rede de apoio público, da qual o Centro de Atenção Psicossocial (Caps) faz parte, que atende tanto a ideação suicida quanto as tentativas. A gerente do órgão, Denise Thum, explica que ideação é quando já existe uma espécie de planejamento, algo mais concreto em relação ao ato. O tratamento vai depender de cada caso, mas existem equipes especializadas que oferecem esse apoio. A média de atendimentos de ideação e tentativas de suicídio é de seis a oito casos por mês, entre as três unidades do Caps, totalizando 100 casos por ano.
Denise Thum, gerente do Caps em Jaraguá | Foto Eduardo Montecino/OCP
“Atendemos tanto por demanda espontânea, pessoas que chegam por meio da família ou unidade de saúde, quanto as que já tentaram suicídio e foram parar no Pronto Socorro. Temos um trabalho bem parceiro com o Pronto Socorro do Hospital São José, que é grande atendedor dessas situações de emergência. Muitas vezes, a pessoa precisa ficar internada e depois ela vem para o atendimento no Caps”, relata.
De acordo com a gerente, há momentos em que os casos de ideação e tentativas são mais recorrentes. “No Caps infantil, quando tinha aquela questão do jogo da baleia azul, nós atendemos numa semana seis casos entre ideação e tentativas de adolescentes. Nenhum tinha a ver com o jogo, mas isso levou as pessoas a ficarem mais atentas, a terem mais coragem para falar sobre o tema”, ressalta.
Neste ano, a equipe percebeu um aumento de jovens nos atendimentos, o que não significa que não existiam casos antes, apenas que eles agora estão buscando mais ajuda. Mas, a especialista enfatiza que o suicídio (ideação, tentativa e casos efetivos) não tem faixa etária. É cíclico e depende muito da situação de vida das pessoas. “No ano passado, quando começou essa crise econômica, com uma série de demissões ou possibilidades dessas demissões ocorrerem, houve muitos adultos, principalmente homens, que acabaram se desesperando. Há essa responsabilidade de manter a casa, então aumentaram os quadros de estresse e ansiedade sobre o que poderia acontecer. Isso, para o homem, é algo muito forte, o fato dele não conseguir mais prover a sua família deixa-o muito vulnerável”, diz a gerente.
Também são apontados outros motivos que podem desencadear o desejo suicida, como quadros de depressão e de ansiedade, a psicose pelas vozes de comando, o transtorno bipolar, abuso e dependência de drogas, bulliyng, entre outros.
MAIS AMARELO
Para divulgar o Setembro Amarelo, o CVV pede que as pessoas usem roupas ou fitas amarelas e convida a população de Jaraguá do Sul e região, especialmente as escolas e entidades públicas e privadas, a integrarem à proposta. Solicita a colocação de faixa de TNT, laços ou balões amarelos nos portões, nas fachadas e no interior para chamar a atenção para esse importante movimento de valorização da vida, além de iluminar os prédios e as casas.
AÇÕES SETEMBRO AMARELO:
• CVV — Iluminação de pontos da cidade enfatizando a importância de abordar o tema suicídio, como o prédio da Fundação Cultural, Biblioteca Pública e a Chiesetta alpina. Serão colocadas faixas pela cidade e haverá distribuição de material de conscientização no dia 16, pela manhã.
• Caps – Dia 12, ação no Jaraguá do Sul Park Shopping, das 10h às 22h, com equipe para prestar esclarecimentos à população. Nas unidades de saúde, haverá rodas de conversa durante o mês de setembro.
REDE DE APOIO NAS UNIDADES DE SAÚDE 
Quando a família identificar sinais de que alguém precisa de ajuda, ou a pessoa mesmo decidir buscar apoio, pode procurar um posto de saúde. No local, de acordo com a terapeuta ocupacional do Caps, Ana Célia Miranda de Oliveira, um profissional vai identificar a situação, se há ideação de suicídio, e repassará as primeiras orientações. Quando o risco é grande, o paciente é encaminhado ao Caps. “Dentro da nossa organização enquanto saúde, um dos lugares que a gente sugere que a pessoa angustiada busque é a unidade. Nas regiões em que há agente comunitário, o ideal é que ela possa aproveitar esse profissional. Ele vai trazer a situação para a unidade e a equipe vai se mobilizar.
Pode ser a própria pessoa, pode ser um familiar”, sugere. Quando a unidade de saúde tem conhecimento do caso, aciona outros dispositivos, desde o apoio matricial, que é a equipe, até os serviços especializados nos Caps. “Dependendo da situação, a pessoa vai direto para o hospital, varia muito daquilo que estiver acontecendo. Ideação é na unidade. Se já houve tentativa, aí precisa ir ao hospital”, explica Ana Célia.
Denise Thum esclarece que, na unidade, os profissionais vão trabalhar com atendimento de escuta. Muitas vezes acionando a família, porque é necessária uma rede de apoio e até de vigilância se há um planejamento, uma decisão já tomada. “Então, é preciso estar vigilante e não deixar essa pessoa sozinha, para ela não conseguir efetuar esse plano. Quando a pessoa passa por esse trabalho e mesmo assim comete o suicídio é muito difícil para nós. Para a família, então, nem se fala, mas, ao mesmo tempo em que queremos salvaguardar aquela vida, os recursos de certa forma são limitados quando a pessoa já tomou a decisão. Quando percebemos que a pessoa realmente está muito decidida, esse é um critério de internação”, expõe. A ajuda pode vir de psicoterapia individual ou em grupo, mas leva tempo. Até haver certa tranquilidade, não é de uma hora para outra, mesmo com medicação. É sempre um desafio.
UMA BATALHA INCESSANTE PELA VIDA
Sem saber o que era depressão, a caminho do trabalho, Maria*, 55 anos, casada, mãe, enxergou um caminhão vindo e decidiu se jogar em sua direção. Segundo relatou à reportagem, naquele instante, ela sentiu um desejo muito grande de morrer. Com um bom reflexo, o motorista conseguiu frear a tempo e saiu do veículo para ajudá-la. “Ele achou que eu tinha passado mal, me deu água. Mas o que eu queria mesmo era morrer. Não sabia explicar o motivo, mas sentia um vazio, uma tristeza, só queria que aquilo acabasse”, conta.
Por acreditar que tinha problemas clínicos, devido às dores no corpo e apatia, buscou auxílio médico. Um dia, foi até a Rede Feminina de Combate ao Câncer para receber ajuda em alguns exames e uma psicóloga deu o diagnóstico de depressão. Por quatro vezes ela tomou medicamentos em grande quantidade buscando a morte. “Eu queria dormir para sempre, não queria mais acordar. Não sabia o que era. Não conseguia controlar. É difícil falar sobre isso. Ouvi muito que isso era falta de Deus na minha vida e fico triste, porque não é verdade. Nunca imaginei isso pra mim, mas não controlo. Chegou um momento em que nem sabia mais quem eu era”, desabafa.
O alívio para essa carga veio com o apoio do Caps, além de outras atividades, como a prática de ioga e confecção de produtos artesanais, e o retorno ao mercado de trabalho. Por não conseguir mais se manter em locais com grande aglomeração de pessoas, deixou de frequentar shoppings, festas e outros eventos. “Procuro me ajudar com outras coisas que posso fazer sozinha. Acabei me isolando e as pessoas também fizeram isso, porque não sabem lidar com a doença. O Caps foi a melhor coisa que me aconteceu e, quando vem aquela vontade de morrer, porque ela ainda vem, penso no que as profissionais de lá me disseram, para sempre pensar nos meus filhos. E é neles que penso, tenho um casal”, diz. Maria também toma medicamentos e recebe acompanhamento de assistente social e psiquiatra. Para quem sofre do mesmo problema, ela pede que lute bastante e que não dê ouvidos quando outros falarem que é falta de Deus ou que é bobagem. “Ninguém quer sentir isso e, por sentir, acaba desejando morrer. É preciso muita ajuda, pois todo o dia é difícil”, conclui.
É PRECISO DESVINCULAR O SUICÍDIO DA DEPRESSÃO 
Quando se fala em suicídio, o primeiro pensamento sobre a possível causa é a depressão. Quanto a esse conceito, já assimilado pelo inconsciente coletivo, a psicóloga do Caps, Alair Poluceno faz um alerta. “É interessante desmistificar essa questão. Quando falamos em suicídio as pessoas tendem a pensar que ocorreu por uma situação de depressão. E não. Pode ser por conflitos diversos que a pessoa acaba não suportando. Pode ser uma coisa muito rápida, não precisa ser algo prolongado”, enfatiza. A perda do emprego, uma discussão com o namorado, um adolescente em conflito amoroso são exemplos de situações desencadeantes de estresse, raiva, dor e outros sentimentos. “Varia muito, pelo momento de vida da pessoa. É preciso desvincular da depressão, pois não é regra. São situações de conflito, de desespero, que fica muito difícil de lidar. Ocorre em qualquer idade, atingindo também os idosos”, afirma a profissional.
O afastamento do convívio social, não se sentir pertencente, sentimentos de solidão e inutilidade podem representar, também, uma rotina que vai “consumindo”. “Isso acontece muito quando as pessoas param de trabalhar e não se ocupam. Quadros como esse merecem atenção”, pede Alair. A equipe do Caps destaca que, normalmente, as pessoas não querem necessariamente morrer. Elas querem se livrar daquele problema, daquela dor, e a única alternativa passa pela morte. “Mas, se elas pudessem resolver sem morrer, fariam. Elas só querem que aquilo pare. Daí a importância de não julgar e nem subestimar a dor do outro”, conclui Denise Thum.