Para criar um plano de mobilidade e transporte capaz de suprir as necessidades da população, é preciso antes estudar os gargalos que prejudicam a construção de uma estrutura viária eficiente. Por isso, o Instituto Jourdan disponibilizou em seu site uma série de documentos que apresentam o estudo realizado pela empresa Urbtec, de Curitiba, sobre a mobilidade urbana em Jaraguá do Sul. O estudo servirá como base para a audiência pública que acontece no próximo dia 27, quando serão discutidas as diretrizes e ações do plano. Os gargalos apontados pelo estudo são fruto de uma análise detalhada de todos os sistemas modais utilizados na cidade, assim como dos trajetos escolhidos e das formas de uso das vias e calçadas. De acordo com o gerente de mobilidade urbana do Instituto Jourdan, Aurélio Luiz Junckes, o diagnóstico é uma forma precisa de avaliar a situação do município e buscar soluções que efetivamente se enquadrem na realidade local. “Para propor soluções, é preciso ter informação. Não podemos ficar nos achismos, temos que poder justificar as decisões com base no que realmente acontece”, salienta ele. Esta semana, o Instituto Jourdan deverá publicar também algumas das propostas a serem apresentadas na audiência pública. Para a elaboração do plano, o município investiu R$ 398,75 mil. O contrato com a empresa foi assinado em novembro de 2014, com um prazo de dez meses para conclusão. No entanto, foram necessários nove meses além do previsto para que o documento fosse entregue. Na época, o engenheiro civil da Urbtec, Gustavo Taniguchi apontou a necessidade de obter informações da Rumo-ALL sobre o sistema ferroviário e da Canarinho sobre o transporte público. Principais problemas Circulação viária • O estudo aponta a existência de pontos de conflito entre diferentes fluxos, como trem, bicicleta, ônibus, carro e pedestre, principalmente em locais próximos à linha férrea. Neste aspecto, o trem é indicado como um grande problema de mobilidade, especialmente pelo fato de que o modal trafega por estes pontos de confluência em horários de pico. Problemas com a sinalização nos pontos de cruzamento ainda tendem a agravar a situação. • A BR-280, que corta o município, também é responsável pela geração de alguns gargalos, semelhante à linha férrea. Neste contexto, os principais problemas são a falta de travessias e passarelas para pedestres e a falta de viadutos para melhoria da mobilidade. A situação também é recorrente nas rodovias SC-416 e SC-108. • Segundo o plano, a falta de itinerários alternativos para o desvio do tráfego de veículos pesados da área central resulta em uma perda de mobilidade significativa. O número de pontes é insuficiente, especialmente se levado em consideração a estrutura natural da cidade, cortada pelos rios Itapocu e Jaraguá. O diagnóstico também ressalta a falta de estrutura viária específica que atenda as principais áreas industriais da cidade. pedestreCirculação de pedestres e acessibilidade • Conforme o estudo, a área central da cidade não está adequada a algumas leis e decretos federais de acessibilidade. Entre elas, destaca-se a adoção de critérios gerais para a promoção da acessibilidade, eliminando barreiras e obstáculos nas vias públicas, na construção e reforma de edifícios e nos meios de transporte e de comunicação e no mobiliário urbano, como semáforos e mecanismos para orientação em travessias. • Boa parte das calçadas não possui uma largura suficiente, sendo inferiores a 1,90 metros. Conforme o diagnóstico, as ruas Marechal Deodoro da Fonseca e Reinoldo Rau possuem as calçadas mais largas e em melhores condições da cidade. Nas demais, em geral o estado de conservação é ruim e existem problemas como desníveis e obstáculos. As rampas de acesso e pisos táteis estão presentes em muitas localidades, porém, a maioria em desacordo com as diretrizes estipuladas por lei. Locais como o calçadão apresentam ainda riscos nos cruzamentos. • Outras vias da área central também apresentam muito pouca arborização e mobiliário urbano, o que torna a atividade de caminhar menos atrativa. O estudo destaca que vias com boas condições de “caminhabilidade” são importantes por estarem diretamente associada ao uso do transporte coletivo. Transporte público individual • A frota de táxis de Jaraguá do Sul é tida como extremamente defasada – segundo o estudo, pesquisas mostram que a relação média ideal seria de um táxi para 1.381 habitantes, quando, atualmente, a cidade conta com um táxi para cada 2.768 jaraguaenses. Por esse calculo, o déficit está entre 49 e 58 veículos. Para a cidade, o ideal seriam mais 32 táxis. • No que diz respeito ao transporte escolar, o estudo aponta que existem deficiências na gestão e fiscalização deste modal. O aspecto mais importante seria a criação de um banco de dados com ênfase nas variáveis operacionais, criando registros de quem utiliza o serviço e regulamentação das rotas e da necessidade de monitores, de forma a otimizar os trajetos e evitar a demanda dispersa. busTransporte público coletivo • O sistema de transporte possui 23 linhas, com mais de 300 itinerários diferentes, o que, segundo o estudo, é fruto de um crescimento desordenado e dificulta o entendimento dos usuários a respeito de horários e linhas. Além disso, o estudo afirma que o número de linhas deveria coincidir com o número de itinerários, sendo que a forma como o sistema está implementado atualmente torna difícil a fiscalização e o planejamento das rotas. • O levantamento mostra que em Jaraguá do Sul apenas 19% das pessoas utilizam o transporte público coletivo para deslocamento, quando o mínimo almejado varia em torno de 30% a 40%. Como reflexo, o custo da tarifa tende a ficar mais elevado, já que o valor dos insumos cresce e a demanda de usuários cai, gerando um desequilíbrio entre os custos do transporte e o nível do serviço oferecido à população. • Até então, a gestão do sistema de transporte público coletivo está quase que totalmente centralizada nas mãos da concessionária. Para o Instituto Jourdan, o estudo mostra que é preciso estruturar uma equipe de forma a centralizar o gerenciamento do transporte coletivo dentro da gestão pública, estipulando horários, itinerários e condutas que sejam aplicadas independentemente da empresa que estiver oferecendo o serviço. • O estudo destaca a importância de investir em integração entre os diferentes modais, de forma a garantir que o transporte supra a necessidade de cada indivíduo, por meio de uma variedade de combinações. Atualmente, a integração entre os modais é extremamente baixa no município. Um exemplo é a falta de bicicletários nos terminais. • O documento cita algumas das medidas apontadas pelo Transfácil, um estudo realizado há alguns anos pela Prefeitura que aborda melhorias no sistema de transporte coletivo. Entre as medidas citadas estão a estruturação de um sistema com terminais de integração, a criação de uma fatura única integrada e a implementação de um gerenciador do sistema de trânsito e transporte coletivo. Estacionamento • O número de vagas de estacionamento da área central não atende à demanda da população. Segundo dados de 2010, as vagas em vias centrais possuem uma média diária de ocupação de 92%, o que significa que elas ficam ocupadas por cerca de nove horas diariamente. A não regulamentação das áreas de carga e descarga e embarque e desembarque também causam transtornos na região central. Transporte de cargas • Segundo o estudo, o principal gargalo para o transporte de cargas está na falta de opções de contornos viários que permitam o deslocamento dos caminhões por vias alternativas às centrais. O principal fluxo de caminhões de carga atualmente é proveniente de Guaramirim (72%), por meio da BR-280, o que reduz a capacidade das vias e aumenta os congestionamentos em pontos críticos da cidade. billy-dark-2Veículos de propulsão humana • As ciclovias existentes no município estão, em sua maioria, em desacordo com os gabaritos mínimos definidos em lei, que são de 2 metros se unidirecional e de 3 metros se bidirecional, para ciclovias, e de 2 metros para ciclofaixas. Além disso, pesquisa feita no ano passado mostra que 4% dos 274 entrevistados utilizam bicicleta como meio de transporte, o que, segundo o estudo, exige ampliação dos investimentos no sistema viário. • Outro aspecto importante é de que as ciclovias e ciclofaixas do município não foram projetadas para levar às áreas de lazer, e nem sempre conectam os chamados pólos geradores de viagens (indústrias e instituições de ensino). Nas pontes, o compartilhamento de espaço entre ciclistas e pedestres e veículos dificultam o trajeto, assim como a falta de sinalização. • Alguns fatores que tendem a causar o abandono da modalidade são a falta de espaço adequado para guardar as bicicletas, a necessidade de os ciclistas disputarem espaço com os pedestres em muitas localidades, a descontinuidade das rotas e a falta de integração com outros modais. Serviço Audiência pública do Plano de Mobilidade Urbana e de Transporte Coletivo Quando: 27 de junho, às 18h30 Onde: Centro Empresarial de Jaraguá do Sul (Cejas) Informações: www.jourdan.org.br