Bairro preserva tradição alemã e essência agricultora | Foto Eduardo Montecino/OCP News

Bairro preserva tradição alemã e essência agricultora | Foto Eduardo Montecino/OCP News

A história começa em 1892 e não tem fim. A preservação da cultura e das raízes germânicas está estampada na arquitetura e uma conversa rápida é capaz de identificar o sotaque carregado, fruto da colonização alemã.

A preservação da língua, dos costumes, da cultura e da arquitetura é natural, explica a historiadora Silvia Kita. Ela conta que o tripé das colonizações européias está baseado na preservação e fomento da cultura, religião e educação.

E nos bairros Rio Cerro I e Rio Cerro II, manter as raízes é marca registrada. O portal de entrada de Jaraguá do Sul para quem chega à cidade vindo de Pomerode, por exemplo, exalta os traços alemães.

Tudo preservado cuidadosamente na arquitetura de residências, escola e sociedades de tiro que, além de demonstrarem o amor à tradição através da edificação, ainda preservam os costumes que iniciaram com a colonização do bairro, lá em 1892, quando as terras começaram a ser adquiridas pelos colonos.

Foram eles que transformaram o local e permanecem firmes até hoje em pequenas e médias propriedades. Não é incomum ver, ao invés, de veículos trafegando pela rodovia SC-110, tobatas e tratores.

O cenário se alterou desde que os colonos começaram a chegar pela estrada que, à época, estava longe de ser asfalta e sequer era aquela conhecida como a SC-110 de hoje. Silvia explica que a colonização da época naquela região foi realizada especificamente para o cultivo. “Não se percebe a aquisição de lotes para outras coisas que não a agricultura”, diz.

Sociedades disseminam tradições germânicas a todas as gerações | Foto: Edu Montecino/OCP News

Além disso, a historiadora ressalta a íntima ligação entre a região do Rio Cerro e do Rio da Luz. Ela conta que a estrada pela qual os colonos chegavam era a chamada “estrada velha”, que ligava os bairros, o que acabou intensificando a ligação, entrosamento e comunicação entre os moradores.

“As famílias trafegavam pela estrada e pelas duas regiões. Além disso, elas adquiriam terras dos dois lados do rio, tanto que hoje, é muito comum que as famílias possuam casas e terrenos tanto na região do Rio Cerro quanto do Rio da Luz”, afirma.

Se os três pilares são educação, cultura e religião, o bairro seguiu a risca a receita, salienta Silvia. Em 1902, as igrejas luteranas começaram a formar comunidades na região e no ano seguinte, a escola alemã, que englobava também o Rio da Luz, fortalecia o ensino alemão entre os moradores.

A preservação, ressalta a historiadora, está presente nos imóveis, como marcos da identidade alemã, mas também no dia a dia da comunidade.

“Quando falamos em patrimônio cultural não se fala só em edificação. Eles têm uma preservação na própria cultura, comida, sociedades de tiro, grupos folclóricos. Então, a região do Rio Cerro como um todo é de colonização germânica onde esses valores culturais são bem arraigados, tanto os culturais quanto os religiosos e educacionais”, destaca.

Entre os pontos chave que identificam o bairro de longe como uma comunidade tipicamente alemã, estão as edificações. Além do portal de entrada, casas construídas na primeira metade dos anos 1900 mantêm em pé as características germânicas.

Muitos deles são marcos, como a casa dos Roeder, antigo e importante comércio do bairro. A casa, construída na década de 1940 permanece intacta, assim como a cultura alemã.

Bairro preserva história e famílias pioneiras

As grandes casas comerciais eram pontos de referência e até mesmo de sobrevivência em muitas regiões afastadas e isoladas. No Rio Cerro não era diferente e como a característica do bairro é a preservação, os antigos prédios nos quais “se vendia de tudo” permanecem como patrimônio. É assim com a casa da família Roeder.

Se hoje o prédio abriga uma padaria, há muitos anos era uma grande casa de comércio do bairro, assim como o comércio da família Gumz. “São marcos dessa história e a comunidade se identifica, preserva”, ressalta a historiadora Silvia Kitta.

Edificação do início da década de 1940 foi um dos principais comércios do bairro | Foto: Edu Montecino/OCP News

Para Rolf Roeder, de 62 anos, a casa representa muito mais, afinal, foi naquele piso de madeira e naquelas escadas que ele cresceu. Construída no início da década de 1940, a casa continua na família e ele, depois de 35 anos morando fora, retornou para o local.

De volta ao Rio Cerro há dois anos, Roeder se deparou com um bairro bem diferente. “Mudou muito. Na minha infância e adolescência, só tinha pó, nem pensar em asfalto. Naquela época era inimaginável pensar no transporte como ele é hoje”, conta. “Eu cheguei a recolher leite até de carroça”, completa.

Apesar de surpreso, o pastor aposentado disse que é importante e emocionante ver o desenvolvimento do bairro no qual foi criado e de onde tem boas lembranças.

“Foi muito bom crescer aqui, naquele tempo conhecíamos todo mundo, todos falavam alemão e cresceram juntos”, lembra. “Até me alegro com o desenvolvimento do bairro que cresceu, mas continua preservando suas tradições”, ressalta.

Natureza abundante e acesso fácil

Para Rolf Roeder são muitos os pontos positivos do bairro que é privilegiado também pela natureza que cerca o Rio Cerro de morros. O pastor afirma que a facilidade de acesso ficou ainda mais evidenciada com a revitalização da SC-110, obra entregue em novembro de 2017.

“Estamos próximos de um dos maiores bairros de Jaraguá do Sul, que é a Barra e graças a revitalização esse acesso ficou ainda mais fácil e seguro, com a implantação de ciclofaixas que garante a vida dos ciclistas”, diz.

Apesar disso, Roeder afirma que a sinalização vertical da rodovia poderia melhorar com a instalação de placas, como as de calçada compartilhada.

Além disso, ele ressalta a qualidade da educação na região e a preservação da cultura alemã, evidenciada com a presença e manutenção de duas das mais tradicionais sociedades jaraguaenses, a Aliança e a Alvorada.

“Eles não apenas preservam as tradições alemãs como as cultivam entre os mais jovens e isso é fundamental”, salienta.

A principal dificuldade, aponta Roeder, é com o recebimento de correspondências, uma vez que na região em que mora, não há CEP e, portanto, não há entrega regular dos Correios. Dessa maneira, todas as semanas ele se desloca até o Centro, onde mantém uma Caixa Postal.

Apesar disso, ele afirma que já há negociação para instalação de mais uma caixa comunitária que possa minimizar o problema.

Belezas naturais do Rio Cerro encantam moradores | Foto: Edu Montecino/OCP News

Para a companheira, Elisete Roeder, de 64 anos, a natureza é o ponto mais forte do bairro e é nela que a aposentada “se agarrou” quando mudou completamente de vida. Há dois anos ela mudou com o companheiro para a casa da família, parou de trabalhar e viu a vida dar uma volta de 360°.

“A natureza é fora de série, é um presente”, destaca. Ela conta que a cultura e a riqueza ambiental a ajudaram na adaptação. “Eu era professora, trabalhava, morava em outro lugar e tudo mudou. Não estranhei o lugar, mas toda essa mudança e toda essa atmosfera está ajudando”, finaliza.

Bairro agricultor

Nas beiradas da rodovia, é possível perceber que a essência do bairro, construído com base na agricultura, permanece. Plantações de banana e milho são paisagens recorrentes ao longo da SC-110 e Lauro Spiess colabora com a preservação também do DNA agricultor do bairro.

Aposentado, ele se dedica ao plantio na propriedade da família. Família é, inclusive, o que ele mais preserva e conseguiu reunir todos ao seu redor.

Na propriedade, que fica próximo ao portal de entrada da cidade, ele mora com a companheira e os dois filhos que, embora trabalhem na indústria, permanecem próximo à família.

Para Spiess, hoje o Rio Cerro se divide: parte é de moradores antigos e seus descendentes e parte de moradores novos que se encantaram com o lugar e fixaram raízes. Embora goste do que vê hoje em dia, o aposentado afirma que “antes era bem melhor”.

Aos 66 anos, ele passou 63 no Rio Cerro e ressalta que o sossego até permanece, mas Spiess faz questão de dizer que décadas atrás era ainda melhor no quesito segurança. “Uns 40 anos atrás dava pra deixar a bicicleta em qualquer lugar, hoje já fica com receio”, diz com o sotaque carregado denunciando a forte influência alemã.

Há 63 anos no bairro, Lauro Spiess viu até estrada principal mudar de lugar | Foto: Edu Montecino/OCP News

Vivendo há mais de seis décadas no mesmo lugar, ele lembra como a estrada, hoje asfaltada, tinha até mesmo outro traçado. “Ano passado inauguraram a revitalização, mas antes, nem asfalto tinha, acostamento, nada. Ela nem era ali onde vocês estão vendo”, conta enquanto aponta para onde a estrada passava antigamente.

Sem reclamar de nada, o aposentado exalta o forte senso de comunidade e a luta pela preservação da história e cultura do bairro e enfatiza. “Daqui só vou sair dentro de um caixão para o cemitério”, finaliza.

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