Paulo Roberto passou por procedimento no dia 6 de agosto | Foto Eduardo Montecino/OCP News

Paulo Roberto passou por procedimento no dia 6 de agosto | Foto Eduardo Montecino/OCP News

“Não ficou nenhuma marca grande, ficou um sinal, é a única marca que deixou no meu corpo, mas com certeza o que ficou para mim é muito grande, muito grande mesmo”.

Os dois sinais na bacia do vendedor externo Paulo Roberto Fernandes, de 31 anos, são pontos tão pequenos e quase imperceptíveis que ele mesmo afirma sentir apenas quando desliza a mão prestando muita atenção.

Apesar disso, garante que o procedimento cirúrgico deixou sentimentos difíceis de explicar. Há pouco mais de 30 dias o jaraguaense viajou até Porto Alegre por uma missão mais do que nobre: doar medula óssea. Para ele, o que ele doou foi esperança para alguém que sequer conhece.

Doador de sangue há nove anos, foi também em 2009 que Paulo se cadastrou como doador de medula óssea, porém, a ligação inesperada aconteceu apenas em maio deste ano, quando o vendedor foi questionado sobre a intenção de realmente se tornar um doador.

Ele conta que estava dirigindo quando uma ligação com o prefixo do Rio de Janeiro o pegou de surpresa.

“Eu olhei aquela ligação com o DDD 21 e já pensei que era trote, mas atendi. Depois de explicarem eu até parei o carro porque até então não tinha caído a ficha, achei que eram perguntas para reativação de cadastro, mas quando falaram da possibilidade de compatibilidade, até mudou meu ânimo”, lembra.

De maio para cá, o que parecia distante foi se tornando realidade. Paulo viajou a Porto Alegre para uma bateria de exames depois de realizar um prévio em Jaraguá do Sul.

Depois, voltou para a capital gaúcha para realizar uma autodoação de sangue, procedimento necessário para transfusão após a doação de medula.

Sem conhecer o receptor da medula doada, Paulo reforça a importância de as pessoas refletirem sobre a diferença que podem fazer na vida do próximo sem que isso sequer seja um problema para si.

“Doar é dar oportunidade para uma pessoa que realmente está precisando, uma oportunidade de ela recomeçar, para que ela possa ter um pouquinho de esperança. Acho que essa é a ideia que precisamos ter”, reflete.

Certeza de doar

O procedimento ocorreu no Hospital das Clínicas em Porto Alegre, no dia 6 de agosto e hoje, menos de 40 dias depois, o vendedor conta que a primeira entrevista realizada na unidade de saúde gaúcha foi impactante e o mudou.

Ele explica que no momento da espera se deparou com inúmeros pacientes passando pelo processo de quimioterapia e radioterapia e ver crianças em um tratamento tão agressivo o fez ter a certeza da doação.

“Você entende quando um adulto passa por algo assim, você pensa que ele aproveitou momentos, mas uma criança não teve ainda a capacidade de dizer e ver o que é bom ou ruim, de viver isso. Aquele momento pra mim mudou tudo e qualquer dúvida que eu tinha acabou ali”, lembra.

Ele permaneceu internado durante três dias entre o pré operatório, o procedimento cirúrgico e o pós operatório e destaca que hoje a vida segue normalmente, ao menos no que diz respeito à saúde e atividades.

“Na terceira semana eu já voltei às atividades de academia e tudo mais, hoje é tudo normal, só tomo um remédio para evitar anemia, mas daqui oito dias encerra”, diz.

Sobre o procedimento, embora não tenha medo de agulhas ele admite que as dores existem e são bastante intensas no início, mas minimiza o impacto.

“Depois que aconteceu, claro que doeu. Como são punções na bacia, furos mesmo, senti dor, é normal. Mas toda a equipe foi muito comprometida e em pouco tempo eu estava de volta às minhas atividades normais”, garante.

Medula foi enviada aos Estados Unidos

O processo de doação de medula óssea é totalmente sigiloso e não há como saber quem é o receptor, porém, no caso do jaraguaense Paulo Roberto Fernandes, de 31 anos, uma particularidade permitiu que ele soubesse, ao menos, parte do destino de sua doação: os Estados Unidos.

Ele conta que após responder todo o questionário padrão, foi necessário responder outras perguntas direcionadas ao governo americano, para onde a doação foi encaminhada.

Para Paulo, que não divulgou, até o momento, a doação, a sensação é de dever cumprido. Embora fale timidamente, deseja que a doação sirva sim como exemplo.

“Acho que fica o exemplo que não tem problema nenhum com quem doa, que não dói tanto assim, não custa nada e o organismo rapidamente realiza a reposição necessária”, fala.

Mesmo sem saber a identidade da pessoa que recebeu a doação, o jaraguaense garante que o pensamento sempre esteve em quem seria beneficiado.

“O que eu sempre fiz foi tentar me colocar na situação dela, imaginar que eu poderia estar recebendo. Deve ser uma sensação que talvez nem consiga descrever. É preciso querer ajudar alguém, querer doar vida, querer dar um pouquinho de esperança para aquela pessoa. Esse, talvez, é o exemplo”, finaliza.

 

Como se tornar um doador?

1. Procure o hemocentro mais próximo

Agende uma consulta de esclarecimento ou palestra a respeito da doação de medula óssea. Em Jaraguá do Sul o Hemosc fica na rua Dr. Valdemiro Mazurechen, junto ao Hospital São José, o contato é pelo (47) 3055-0454.

2. Preencha o formulário

Além de assinar um termo de consentimento e preencher uma ficha com informações pessoais, será retirada uma pequena quantidade de sangue (10 ml). Esse processo só é possível mediante a apresentação do documento de identidade.

3. Realize os exames

O sangue será analisado por exame de histocompatibilidade (HLA) e um teste de laboratório identificará as características genéticas que serão cruzadas com os dados de pacientes que necessitam de transplantes, a fim de determinar a compatibilidade.

Os dados pessoais e o tipo de HLA serão incluídos no Redome (Registro Nacional de Doadores Voluntários de Medula Óssea).

4. Aguarde um receptor compatível

Quando houver um paciente com possibilidade de compatibilidade, o doador será consultado para decidir quanto à doação, portanto, é fundamental manter os dados atualizados.

O processo de doação só prossegue após a realização de novos exames para confirmar a compatibilidade. Além disso, é realizada uma avaliação clínica de saúde do possível doador.

Após vencidas todas estas etapas, o doador é considerado apto e realiza a doação.

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