Toda a crise gerada pelo coronavírus neste ano fez com que a saúde mental fosse um tema muito abordado e pesquisado, refletindo também nos atendimentos psicológicos e nos profissionais da área.

As consultas online se tornaram rotina e foram cruciais para diversos pacientes. Em contrapartida, deixaram de lado o contato físico e o olho no olho. Detalhes que fazem a diferença durante o atendimento.

A psicóloga do Centro de Atenção Psicossocial Infantojuvenil (Capsi) de Jaraguá do Sul, Tais Danna, de 41 anos, sentiu os efeitos da pandemia ao longo do ano no âmbito pessoal e profissional.

 

 

Segundo ela, a primeira mudança colocada em prática no local de trabalho foi o cancelamento das dinâmicas em grupo, abrangendo crianças, adolescentes e responsáveis.

Apenas consultas individuais foram marcadas, com horários espaçados e verificação de temperatura na entrada.

"Eu continuei com os mesmos horários de trabalho e não paramos de atender em nenhum momento, mas o número de consultas foi reduzido. Passei a usar máscara, cabelo sempre preso e mantendo o distanciamento. Tudo isso é bem diferente do atendimento psicológico anterior a pandemia", relata.

Tais enfatiza que as máscaras fazem com que fique menos visível a expressão facial dos pacientes e que em alguns momentos "é difícil não pode dar um abraço ou tocar neles", principalmente nos atendimentos com crianças, que demandam de mais afeto.

"Por isso, sinto que a interação com os pequenos foi bastante prejudicada. Tem materiais, como jogos e brinquedos, usados durante a consulta, que são de difícil higienização e não podem ser utilizados", aponta.

Adaptação da rotina

Com os usuários adolescentes e adultos, a psicóloga acredita que a maior dificuldade foi o medo das pessoas em sair de casa num momento de pandemia e a suspensão do transporte coletivo.

"Passamos a fazer consultas por telefone, o que não acontecia antes. Porém, atender sem ver o indivíduo causava para ele e para mim um desconforto. Não temos vídeo e outros recursos aqui no serviço para fazer atendimentos online, então as pessoas acabavam tendo uma tendência a falar menos ou a ficar mais introspectivas no teleatendimento", avalia.

Mesmo com os desafios, Tais observa que as consultas à distância foram essenciais para a equipe conseguir manter um vínculo com os usuários, em especial nos momentos mais críticos.

Foto Fábio Junkes/OCP News

Nos atendimentos psicológicos feitos presencialmente, o fato de precisar deixar as janelas abertas para manter a ventilação também afeta a privacidade dos pacientes.

"Às vezes, a pessoa está chorando, contando seus problemas pessoais, e estranhos passam do lado de fora. Isso prejudica bastante", diz.

Em relação a pacientes que contraíram a Covid-19, Tais salienta que foi preciso dar suporte por telefone e auxiliar na entrega de medicamentos, já que a família do usuário também estava em isolamento.

"De modo geral, acredito que o fato das pessoas estarem mais ansiosas e isoladas tem trazido diversos prejuízos. Muitos adolescentes que eu atendendo estão se sentido mais solitários e frustrados. Vários tiveram dificuldade em seguir as aulas online e vão perder o ano", observa.

Mudança de rotina e preocupação constante

A preocupação constante com a higienização das mãos, da mesa e materiais de trabalho viraram rotina na vida da psicóloga.

Ao chegar em casa, os cuidados continuam. "Não entro mais pela sala e sim pela lavanderia, deixando os sapatos, roupas e chaves ali para serem limpos", conta.

Do lado emocional, Tais comenta que passou por momentos de ansiedade e aflição, principalmente pela dúvida de poder estar com o vírus e transmitir para alguém.

 

 

"Tive colegas de trabalho que pegaram a Covid e além de pensarmos na possibilidade de ter se contaminado também, nos preocupamos com o amigo, que é uma pessoa querida. Qualquer dor de cabeça ou no corpo já é motivo para ficarmos alerta", considera.

Tais avalia que a situação de pandemia é um fator estressante tanto para os pacientes quanto para os profissionais e que as estratégias de contenção do vírus, apesar de necessárias, "restringem o viver, diminuem o contato social e são estressoras".

"Projetos de vida são interrompidos por medo, por dificuldades financeiras, por menores oportunidades do mercado de trabalho. A pandemia afeta a vida social e econômica como um todo", completa.

 

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