Naturalmente, a política sempre foi uma ciência questionável. Se formos analisá-la dentro do atual contexto, então, seria praticamente desprezível. Chamou-me atenção o artigo publicado no OCP, edição de 10 de março de 2016, de autoria do amigo, professor e filósofo João Arnoldo Gascho, intitulado “Político: um ser inviável”. O conteúdo apresenta-nos uma reflexão oportuna para o momento.  Não se reportando precisamente à política, mas, à figura do agente ou o ser político, o professor Gascho pinta, com propriedade, um quadro com cores sombrias retratando, em síntese, a bestificação da ética e a beatificação do egoísmo.
Entretanto, o autor se permite pinceladas de luz quando pondera que “nestas sombras, por outro lado, brilham fortes exemplos como Ghandi, Irmã Dulce, Madre Tereza, Luther King e, também, aquelas ações voluntárias e solidárias, realizadas no dia a dia da nossa comunidade por pessoas anônimas que, com sua prática de boa política social, nos mostram que, talvez, ser bom político é possível”, reconhecendo daí que o título do artigo estaria equivocado. Este é o ponto que me interessa enfatizar, ou seja, o “bom possível”.
Penso que culturalmente o âmago de nossas crises e carências sociais reside muito mais no ceticismo, descrença, resistência e negação da possibilidade e viabilidade da boa política e do bom político, do que, propriamente, no modo equivocado e corrupto do fazer política. Renegar isso é renegar a democracia e, por conseguinte, a liberdade, pois estas não coexistem alijadas da dimensão política.
Ouso sustentar que, quando nos deparamos com afirmações como, “sou anti política”, ou, “não debato política”, ou aquelas extremistas como, “todos os políticos são bandidos”, percebo aí a personificação dos excluídos e alienados políticos. Ao assumirem esse papel sequer percebem que estão correspondendo ao propósito do “político: um ser inviável”, que prefere exatamente os omissos.
Nessa condição, bem alerta-nos o filósofo Cortella, apropriando-se do pensador Philippe Destouches, “os ausentes nunca têm razão”. O que temos observado, por conta do momento que passamos, é uma deliberada criminalização da política e do ser político. Esse pensamento reducionista atenta contra a democracia. Neste aspecto, precisamos nos envolver e sermos politizados o bastante para separarmos o joio do trigo e buscarmos o “bom possível”.