Quem consegue resistir àquele cheirinho tão agradável de café recém-preparado e fresquinho? O aroma é tão característico e rico que até quem não é fã da bebida gosta de senti-lo. Hmmm... Pois essa bebida popular no mundo todo tem associada uma história muito legal aqui em Jaraguá do Sul, sabia? Muitos devem lembrar... o Café Sasse foi um sucesso nas prateleiras de muitos mercados.
Por mais de 50 anos, a Sasse Alimentos foi referência na indústria da cidade e esteve presente nas casas e dia a dia dos jaraguaenses. Pode até ser que o que marcou alguns leitores mais foram os cafés, mas o que deu início à marca Sasse foram as balas.
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Quem nos ajudou a contar essa história foi um dos antigos proprietários, o empresário Errol Sasse. Hoje com 69 anos, ele abriu as portas para mergulharmos na história e contar os feitos do grande empreendedor e fundador da Sasse em Jaraguá, seu pai, Egon Sasse (in memoriam).
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Tudo começou...

... em 1941, quando o jovem Egon saiu de Massaranduba, com 16 anos, cheio de sonhos e aberto para a vida. Foi para Blumenau trabalhar com um primo mais velho que tinha uma fábrica de balas e chocolates na cidade. Ali, Egon viu uma oportunidade para a vida profissional e foi onde trabalhou na área de produção por 12 anos. Durante esse período casou-se com Hilda Drews e se tornou pai de quatro filhos: Errol, Edna, Enete e Edir (os dois últimos nascidos em Jaraguá).
Sem ver mais para onde podia crescer, tomou a grande decisão que mudaria a sua vida: mudou-se para Jaraguá do Sul para montar a própria empresa. Quando chegou na cidade ficou por algum tempo na casa dos pais, que moravam no bairro Ilha da Figueira.
O início da fábrica de balas aconteceu em janeiro de 1953, numa sala alugada de aproximadamente 120m², na Rua Epitácio pessoa. Egon baseava a sua produção no ‘livro verde’, obra escrita em alemão, de onde aprendeu todas técnicas de fabricação. Na época ele recebia a ajuda da esposa que o apoiava muito.
O histórico livro verde Bonbon-Fabrikation de Von N. Besselich
O histórico livro verde Bonbon-Fabrikation de Von N. Besselich. (Foto: Ricardo Treis/Por Acaso)
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(Foto: Ricardo Treis/Por Acaso)
“Lembro-me que essa sala ficava próxima aonde hoje encontra-se o Posto Cidade e, no verão, a nossa diversão era tomar banho no Rio Itapocu”, conta Errol. Nessa época o pai Egon utilizava uma bicicleta para fazer as entregas das encomendas no comércio local.
As dificuldades foram muitas no começo, mas a fábrica crescia e pagar aluguel estava ficando inviável, por isso, em 1954, com as economias que juntou, Sr. Egon comprou um casarão na Rua Benjamin Constant - hoje a Max Wilhelm - que ficava na atual localização da Rádio Jaraguá. Ali a fábrica ficou até 1975.
Em meados de 1964 a Alimenticios Sasse Ltda. adquiriu uma torrefação de café, com a intenção de diversificar as atividades da empresa. “Meu pai comprava café de um senhor chamado Jütte. Como ele estava velho e não tinha herdeiros acabou vendendo a licença do IBC (Instituto Brasileiro de Café) para o meu pai, assim ele poderia torrar café comercialmente”, explica Errol.
Então, quando Sr. Egon adquiriu o “Café Jütte”, ele tinha uma cota de 30 sacas de café que podia adquirir junto ao IBC, que rendiam aproximadamente 1,5 mil quilos de café torrado. Com o tempo ele conseguiu aumento dessa cota e, em três anos, subiu para 300 sacas, ou seja 10 vezes mais.

---- O IBC foi uma autarquia do Governo Federal, vinculada ao Ministério da Indústria e Comércio, que definia as políticas agrícolas do produto no Brasil entre os anos 1952 e 1989, quando foi extinto. ----

E para abrigar a torrefadora, Egon fez a compra de mais uma área de 7,8 mil metros quadrados na Rua Jorge Czerniewicz, onde construiu um grande galpão. Ao lado, mais tarde, ele instalou outra estrutura para transferir a fábrica de balas.
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Fábrica da Alimentícios Sasse clicada por volta de 1975. (Foto: Arquivo Pessoal)
A partir de 1980 começou a modernização na fábrica. Foram adquiridos equipamentos de produção e embrulho de balas, além de moinhos e máquinas especializadas para embalagem do café. E na década de 90, a Sasse triplicou a capacidade de produção.
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Imagem aérea da fábrica Sasse, no Czerniewicz, no início de 2005. (Foto: Arquivo Pessoal/Família Sasse)
O ano de 1994 foi um dos mais especiais e prósperos para a fábrica, isso porque as duas atividades - tanto o café como as balas - trouxeram retorno financeiro equivalente e tudo estava caminhando em harmonia.
Com 70 anos de idade, o grande empreendedor Sr. Egon começou a pensar na sucessão para que o seu negócio pudesse continuar. A decisão foi tomada e a empresa seria entregue aos filhos anos mais tarde, antes de falecer em 1996.

Grandes apostas da década de 1990

Egon Sasse foi um empreendedor que não abria mão de inovar e apostar no que achava que daria certo na indústria, por isso uma das grandes novidades que ele trouxe para a fábrica foi um novo torrador de tecnologia de ponta a nível mundial na época, o Aerotoast.
A máquina tinha um novo sistema que torrava em um período de tempo muito menor e com mais intensidade. Ao invés de rolarem por tambores aquecidos, os grãos eram expostos a jatos de ar quente que garantiam uma torra uniforme e sem uma perda significativa dos óleos aromáticos, responsáveis pelo sabor e aroma do café - na torra convencional à época os grãos eram expostos a uma alta temperatura por um longo período, o que comprometia assim essas características.
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Imagem retirada de um informe publicitário veiculado em um jornal da época
Outro grande investimento foi feito em 1999, quando a Sasse abriu no recém-inaugurado Shopping Breithaupt a Mr. Grain, uma franquia de cafeterias que trazia a proposta de uma experimentação mais sofisticada do café Sasse. 
Foram instalados dois quiosques da marca no local, e a galera amou, mas infelizmente não durou muito tempo pois as estruturas demandavam um investimento maior que os lucros, numa época onde os consumidores de café ainda não eram tão exigentes quanto ao serviço ao redor do produto - hoje muito mais gourmetizado. Os quiosques ficavam nos, até então, dois andares do shopping: um defronte ao Big Bowling e loja Center Som, e o outro embaixo da escada rolante, onde até pouco tempo atrás encontrávamos outra cafeteria presente.
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Unidade Mr. Grain do térreo - imagem retirada do jornal A Notícia, de novembro de 1999. Créditos a Amarildo Forte.
Quem aí lembra da Mr. Grain? :D

Os produtos

A marca Sasse comercializava os mais diversos tipos de café e balas dos mais variados sabores. Veja abaixo um catálogo dos anos 2000 com os produtos:
Cafés
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Distribuição: SC, parte do Paraná, Rio Grande do Sul
Produção: passava de 250 toneladas por mês
Funcionários: chegou a ter 50 funcionários
Balas
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Clique na imagem para ver maior e depois na flecha de "voltar" para continuar a ler o artigo :)
Distribuição: todos os Estados brasileiros, Uruguai, Paraguai e Bolívia
Produção: chegou a produzir 900 toneladas por mês
Funcionários: chegou a ter 250 funcionários

Pioneirismos de Egon

Dois grandes feitos do empresário Egon Sasse são lembrados hoje pelo filho Errol. O primeiro deles foi a mudança do empacotamento, substituindo o papel pelo plástico. "A indústria era bem desconfiada e demorou para aplicar essa mudança. Na região, meu pai foi o primeiro a aderir", conta Errol.
Calendário de 1969 mostra uma ilustração de quando o café era embalado apenas em papel. Foto: Ricardo Treis/Por Acaso)
Calendário de 1969 mostra uma ilustração de quando o café era embalado apenas em sacos de papel. Foto: Ricardo Treis/Por Acaso)
O segundo pioneirismo foi a adesão ao Sistema Melg , com a compra de moinhos mais modernos e que aumentavam o rendimento do café moído, gerando economia para o consumidor. Egon tinha o dom de saber no que apostar e no que daria certo na indústria, como conta o filho.
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Sr. Egon Sasse na década de 1990. (Foto: Arquivo Pessoal/Família Sasse)
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Como eram feitas as balas antigamente?
Basicamente com três ingredientes: açúcar, glicose (açúcar de milho líquida) e água. Essa mistura era cozida em um grande tacho de cobre a 150°C até virar uma calda bem quente, que era derramada em cima de uma mesa de ferro, onde esfriava até uma temperatura adequada para manuseio.
Em seguida era levada a uma máquina - na época funcionava com a força braçal - e a massa era prensada por cilindros que já vinham com moldes para formar a bala. E nós tivemos a oportunidade de ver esses cilindros e fotografar para mostrar a vocês:
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Esses cilindros são de ferro - e MUITO pesados - e eram usados para moldar as balas. Dá pra ver claramente as formas de frutas, e peixinhos. Demais né? (Foto: Ricardo Treis/Por Acaso)
O processo era bem mais demorado, porque era tudo feito manualmente e no tempo certo. "As funcionárias que embrulhavam as balas eram chamadas de 'embrulhadeiras campeãs', porque chegavam a embrulhar 35 quilos de balas por dia. Pra se ter uma ideia, hoje em dia tem máquinas que embrulham mais de mil quilos por hora”, compara Errol entre risos.
Nos anos 60, as balas não eram embrulhadas e nem empacotadas, mas eram armazenadas e vendidas em grandes latas de ferro.
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Foto: Ricardo Treis/Por Acaso

Os últimos anos da Sasse

Em 2002 a empresa entrou em concordata e, em 2007, confiantes na força da marca que foi líder em Santa Catarina na década de 1990, alguns investidores aceitaram o desafio de recuperar a empresa. A estratégia adotada foi o reposicionamento da linha de produtos, sustentada na tendência do consumo de ‘cafés gourmet’, recém chegada ao país.
Assim, foi lançada a nova identidade visual das linhas de cafés Sasse: Tradicional, Extraforte e Espresso.
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Ficou bonito, né? Aposto que dessas caixinhas você lembram nas prateleiras dos supermercados! :) - Foto: Divulgação
Apesar do sucesso dos novos produtos, a situação econômica da empresa era bastante difícil e exigiria uma continuidade nos investimentos a qual os gestores não estavam dispostos. Depois de quase 60 anos, em outubro de 2010, a Sasse Alimentos teve suas atividades descontinuadas. Sua participação, contudo, contribuiu para a mudança de um hábito bem brasileiro: beber café, sentir café. <3
Fachada da fábrica ainda exibia o letreiro com a marca, em 2011 - Foto: Google Maps
Fachada da fábrica ainda exibia o letreiro com a marca, em 2011 - Foto: Google Maps
Assista ao vídeo de um dos comerciais lançados no ano de 2007:
https://www.youtube.com/watch?v=ntUo6eLpElU

GALERIA:

Ficam aqui mais imagem que resgatamos no dia da entrevista. Aproveite um pouquinho mais dessa imersão na história com a gente!
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Imagem retirada de um jornal interno do Café Bauer, ainda na década de 1970, assim que a Sasse aderiu ao sistema Melg
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Imagem retirada de um jornal interno, ainda na década de 1970, do Café Bauer, assim que a Sasse aderiu ao sistema Melg
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Matéria publicada em caderno especial do jornal A Notícia de Joinville em 3 de setembro de 1968. Clique para ampliar. (Foto: Arquivo Pessoal)
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A foto retrata uma parte da fábrica, na área de produção de balas da Sasse. Imagem retirada do Jornal de Santa Catarina, de 21 de abril de 1996, com clique de Jandyr Nascimento.
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Foto do fundador da empresa, Egon Sasse, publicada em maio/junho de 1996, na capa do jornal interno da empresa, o "MenSassegeiro", em homenagem após o falecimento.
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Na foto, Errol junto do pai Egon Sasse. Foto: (Arquivo Pessoal)
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E por último, uma dica para aproveitar as melhores formas de apreciar um bom café! &lt;3
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É tão bom saber um pouquinho mais sobre quem fez parte da história e crescimento da nossa cidade, né? Tem alguma foto antiga, sugestão ou informações a acrescentar? Entra em contato com a gente através do editoria2@poracaso.com, que estamos esperando pela sua contribuição! ;)