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Ele foi matéria-prima para um clássico do cinema nacional (“O Bandido da Luz Vermelha”, 1968) e inspirou música (“Rubro Zorro”, do Ira!), e agora vira livro. A vida de crimes do joinvilense João Acácio Pereira da Costa, um dos maiores personagens da crônica policial brasileira, ganhará uma biografia a ser lançada em setembro pela editora Noir.

“Famigerado – a Vida e o Tempo de João Acácio, o Bandido da Luz Vermelha” está sendo escrito por Gonçalo Junior, jornalista baiano radicado em São Paulo com diversas biografias no currículo. Ele se embrenhou nas 22 mil páginas dos 88 processos judiciais contra o criminoso que aterrorizou São Paulo nos anos 60, além de colher vários depoimentos.

Dessa pesquisa, Gonçalo emerge com um retrato da vida traumática e violenta de João Acácio – cuja morte completou 20 anos no dia 5 de janeiro -, incluindo sua infância nas ruas de Joinville, quando iniciou no mundo do crime.

Acompanhando seus passos em Curitiba, Santos e São Paulo, o jornalista chegou a 154 mansões assaltadas na capital paulista, cerca de cem estupros e 12 homicídios cometidos pelo Luz Vermelha. Ou seja, um retrato bem distante da aura reluzente que o filme de Rogério Sganzerla emprestou a ele, como Gonçalo Junior enfatiza nesta entrevista exclusiva a Orelhada.

O quê atraiu você na história do João Acácio?
Gonçalo Junior – A história do bandido sempre me fascinou muito, porque existe um trauma muito grande nesta cidade (São Paulo). Além disso, é um personagem muito interessante para biógrafos. Na verdade, todos os biografados com os quais trabalhei são personagens um pouco à margem do sistema, e vi que a do bandido era interessante nesse sentido. A oportunidade chegou quando decidi ir aos arquivos do Tribunal de Justiça de São Paulo para ver se conseguia acesso a esses arquivos. Consegui e acabei escrevendo o livro.

E acabou descobrindo algo que era desconhecido da maioria?
Gonçalo – Sim, descobri muitas coisas novas sobre o João Acácio, porque todos os 88 processos contra ele correram em segredo de Justiça. O que encontrei naquela papelada praticamanente nada foi revelado. O juiz o proibiu de dar entrevistas, quatro dias depois da prisão, porque ele começou a falar muito sobre as peripécias sexuais dele nas casas que invadia. Quando, na verdade, o que se constata nos autos é ele estuprou aproximadamente 100 mulheres, de nove a 70 anos, e já chegou a São Paulo (entre 1964 e 1965) com pelo menos seis assassinatos cometidos em Joinville, incluindo dois ou três policiais e quatro delinquentes que viviam na rua com ele. E consegui também, a partir dos laudos psiquiátricos, levantar uma boa parte da infância dele aí em Joinville.

Você chegou a conversar com alguém daqui, um parente, um conhecido?
Gonçalo – Não, até mesmo por uma questão financeira. Meus livros são bancados por mim, feitos nas horas vagas. No caso do bandido, eu tive que fotografar 22 mil páginas ao longo de oito meses, por isso acabei não tendo condições de ir atrás da história de João Acácio em Joinville.

Lycurgo Querido, Folhapress

E sobre a infância de João Acácio em Joinville, o que você descobriu?
Gonçalo – A história que ele contou aos psiquiatras é bem diferente da que a imprensa publicou. Por exemplo, a mãe não morreu em conseqüência dos partos de um dos irmãos. O que ele diz, pelo menos duas vezes, é que eram quatro irmãos, a mãe foi embora com duas irmãs – ela acabou indo para Santos, onde ele a reencontrou quando foi morar lá. Ele e o irmão ficaram com o pai, que morreu de tuberculose quando ele tinha sete anos. E ele passou a ser criado por um tio, muito perverso, que achava que ele e o irmão tinham o bacilo da tuberculose e botava os dois para dormir ao relento, embora o tio recebesse integralmente a pensão dos dois meninos. Isso revoltou muito João Acácio e o irmão, que viraram moradores de rua. Na rua, ele realmente descobriu o mundo do crime. Ele foi abusado sexualmente por meninos maiores. Acho que a partir daí ele passa a ter uma relação muito confusa com as mulheres, mas mesmo assim arruma uma namoradinha. Por causa dela, ele mata dois comparsas, que ameaçaram estupra-la.  O que assusta é que desde pequeno ele se revela um garoto mau, rancoroso e vingativo. Só que ele começa a cometer crimes em Joinville e Curitiba, e acaba indo embora para São Paulo.

Qual a sua opinião sobre o filme do Sganzerla?
Gonçalo – Do ponto de vista estético, como obra cinematográfica, ele é revolucionário, sem dúvida, apesar de ter uma estrutura narrativa muito parecida com “Acossado”, de Godard. Mas ele tem todos os méritos como marco do cinema marginal feito no Brasil. Agora, como personagem histórico, eu diria que é de uma irresponsabilidade imensa. O que aconteceu é que o diretor pegou a primeira semana de notícias sensacionalistas veiculadas pelo jornal Notícias Populares e construiu a figura de um bandido que não condiz nem um pouco com João Acácio. Ele não era esse galanteador que seduzia as mulheres, ele era um estuprador. Em São Paulo, ele matou seis pessoas, inclusive um operário, por motivo fútil – ele descarregou um revólver em cima do rapaz, num ponto de ônibus,  e depois destruiu o crânio dele a coronhadas. Ele não contestava o regime, ele tinha um certo rancor dos ricos. Mas o ódio dele era mais pelo tio, pela família, por não terem acolhido ele. Ele era um criminoso altamente perigoso que não tem nada a ver com o filme.

Para finalizar: o que você acha dessa aura meio glamourizada que se formou em torno do Luz Vermelha?
Gonçalo – Só reforçando: o filme de Sganzerla ajudou muito a mitificar João Acácio, e de uma forma – como você mesmo diz – glamourosa, que não tem muito a ver com o que ele realmente ele era. Foram muitos traumas que ajudaram a despertar nele um perfil de psicopata que tem muito a pouco a ver com o glamour e o modo com que se fala dele hoje.