Foto: Mauro Schlieck, divulgação

Foto: Mauro Schlieck, divulgação

Se a dublagem brasileira é reconhecidamente uma das melhores do mundo, ela certamente tem seus ícones, quiçá gênios. Isaac Bardavid é um deles.

Pioneiro da área no País, em 60 anos ele – que também é ator, com inúmeros trabalhos no teatro e na TV – já foi a voz de centenas de personagens, como Capitão Haddock (Tintim), Tio Fester (Família Addams), Obi-Wan Kenobi, Freddy Krueger, Jor-El e, talvez, a trinca mais famosa: Esqueleto, Tigrão e Wolverine.

Mas Bardavid esteve em Joinville na semana passada para tratar de literatura. Convidado para uma fala e abrir oficialmente a Feira do Livro, na sexta-feira (8), ele não é um estranho no mundo das letras.

Afinal, lançou em 2016, “Versos Adversos”, seu primeiro livro de poemas (trovas e sonetos, principalmente), produzidos ao longo dos últimos 70 anos e finalmente tirados de uma gaveta que, aliás, permanece cheia.

Na entrevista para Orelhada, Bardavid falou sobre poesia, mas inevitavelmente a conversa ladeou para a dublagem que o tornou famoso.

Confira a entrevista

Existe algum tema que o senhor prefira abordar em seus poemas?
Isaac Bardavid - Não. Aliás, eu não me considero um poeta. Eu me defino como um cronista que escreve em forma de verso. Porque escrevo aquilo que vejo na rua, que me toca de uma forma ou de outra, que me diz algo politicamente, em termos de justiça, de dor, de amor. Eu até escrevi um soneto sobre bunda, muito bom por sinal, está no livro. Então eu falo sobre aquilo que me impressiona.

O que o senhor está fazendo no momento?
Bardavid - Acabei de gravar uma participação boa na minissérie “Carcereiros”. Gravei semana passada. Foi meu último trabalho, é muito recente. Eu não trabalho diuturnamente, saio de um e outro em outro. Agora tenho que esperar eles me chamarem. Uma coisa que faço quase que diariamente é dublagem.

Estou aqui hoje e estou perdendo dublagem. Mas tudo bem, estou com 87 anos, não espero mais muita coisa. Eu já fiz o que tinha que fazer, não preciso acrescentar mais nada, nem provar mais nada a ninguém, nem a mim mesmo. O que eu fiz está feito – bem, mal, mais ou menos, gosto, não gosto. Uma coisa eu digo com honestidade: fiz da melhor maneira possível. Eu dei o melhor de mim naquilo que fiz.

Se houve uma aprovação, se não houve, mas tem havido sim. Sou um sujeito muito feliz no reconhecimento do meu trabalho, e sempre defendi que a gente trabalha pelo reconhecimento, e reconhecimento significa aplauso. Eu não conheço nenhum artista no passado que, não tendo sido reconhecido em vida, tenha morrido feliz. Todo artista trabalha pelo reconhecimento da sua obra.

Nessa obra toda, o senhor diria que o Wolverine é o ponto alto?
Bardavid - O Wolverine é o mais recente, e sem dúvida teve uma dimensão que eu não espera. Eu já dublei personagens icônicos antes, o Esqueleto , mas a repercussão que o Wolverine teve foi uma coisa espantosa. Agora, eu o dublei por 24 anos, desde o primeiro desenho que surgiu, em 1994, até o Logan.

E o fato de ele (o ator Hugh Jackman) ter vindo (ao Brasil, em fevereiro de 2017) e eu ter sido entrevistado junto com ele fez com o Wolverine tivesse uma repercussão inimaginável. Então, o Wolverine, dentro da dublagem, é o que posso considerar como o mais importante.

E foi, de fato, o personagem que o senhor mais gostou de dublar?
Bardavid - Não sei, é difícil... Você gosta daquilo que está fazendo. Se você me perguntasse qual o personagem mais difícil, eu responderia. Mas o que eu mais gostei... Em 1960, eu dublava uma série que eu gostava muito fazer, “Bonanza”. Eu dublava o filho mais velho, com muito prazer. Agora, difícil foi o Tigrão. Foi a coisa mais difícil que eu encarei na minha vida de dublador. E eu dublo há 60 anos.

Por quê?
Bardavid - Porque o Tigrão fala assim (faz sons com a  boca, como se estivesse cuspindo as palavras). O tempo dele não é o meu tempo, e ele fala muito rápido. Então é muito difícil.

E o Esqueleto não pela dificuldade, mas porque exigia, porque eu tinha que esganiçar a voz, a minha voz é muito grave, e isso me cansava. E o melhor é aquele que eu ainda vou fazer, o que vai surgir amanhã, quem sabe. A gente faz com o mesmo prazer de sempre.

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