Foto Divulgação
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O dia 28 de maio é simbólico para as mulheres. A data marca o Dia Internacional de Luta Pela Saúde da Mulher e o Dia Nacional de Redução da Mortalidade Materna. Apesar disso, o governo federal tomou uma posição totalmente contrária ao progresso.

No início do mês, o Ministério da Saúde vetou o uso do termo “violência obstétrica” por achá-lo inadequado, já que nenhum médico realmente teria a intenção de causar mal a alguma paciente, o que eu particularmente discordo, já que há médicos, em sua maioria homens, que só querem “arrancar esse bebê logo para ir embora” sem ter o mínimo de empatia com o momento.

Nos quatro primeiros meses deste ano, 260 denúncias por meio do 180 - número da Central de Atendimento à Mulher - foram registradas no país, dez vezes mais que o mesmo período do ano passado. Acontece que as mulheres estão se informando sobre o assunto para que possam ter mais empoderamento e saibam quais os limites que os médicos podem chegar, e estão tomando providências quando seus corpos são invadidos e seus limites ultrapassados, tornando o nascimento de seus filhos uma lembrança aterrorizante, quando deveria ser algo maravilhoso.

O termo “violência obstétrica” se refere aos diversos tipos de agressão a mulheres gestantes, seja no pré-natal, no parto ou pós-parto, e no atendimento de casos de abortamento. Mas, como saber o que já se caracteriza como tal e se você já sofreu esses abusos? Alguns procedimentos estão listados abaixo:

  • recusa de atendimento;
  • desencorajamento médico para parto normal;
  • indicações falsas de cesariana e manipulação de exames;
  • informações mentirosas e sem embasamento científico;
  • intervenções e procedimentos médicos não necessários e sem o consentimento da mulher;
  • aplicação do soro com ocitocina;
  • privação da ingestão de líquidos e alimentos durante o trabalho de parto;
  • exames de toque em excesso e por mais de uma pessoa;
  • ruptura artificial da bolsa;
  • raspagem dos pelos pubianos;
  • imposição de uma posição de parto que não é a escolhida pela mulher;
  • episiotomia;
  • “ponto do marido”;
  • uso do fórceps;
  • imobilização de braços ou pernas;
  • manobra de Kristeller;
  • agressões verbais.

Depoimentos

“Fiz tudo pelo particular, e na hora do meu parto meu médico estava numa festa e não chamaram ele. Senti muita dor, estava sem dilatação suficiente e eles empurravam minha barriga para minha filha sair e quase desmaiei. Muitas horas depois, meu médico chegou apavorado, dizendo que eu não podia mais fazer uma cesárea nem parto normal. Ele me cortou toda - do umbigo até o ânus - e começou a puxar minha filha com o fórceps falando para eu fazer força, foi um açougue, achei que ia morrer. Ele me costurou sem anestesia e eu tive hemorragia em casa. Eu lembro dessa dor até hoje, e tenho vontade de morrer, achei que nunca me recuperaria disso”, Isabel.

“Meu sonho sempre foi ser mãe, e em cinco anos todos os tratamentos deram um cisto. Quando finalmente engravidei, minha gestação foi um sonho… que foi destruído pelo médico. Meu parto foi induzido de 41 semanas e na troca de plantão começou o terror. O doutor gritava comigo falando que eu não estava sentindo tamanha dor, quase ganhei minha filha no banheiro. Quando estava nascendo eu gritei e ele veio correndo. Gritou comigo, me mandou deitar para examinar, me puxou pelo braço até o leito onde eu estava antes do banho, mas eu mal conseguia andar com ela encaixada. Então, ele me puxou nua do banheiro na frente das enfermeiras e de outras mães que estavam ali com seus maridos. Ele me examinou em pé, já que eu não conseguia andar e a cabeça da bebê já estava saindo. Gritou para as enfermeiras que estava coroando, fomos às pressas para a sala de parto e eu deitei na maca para ganhar. Quando veio a contração, veio o corte. Ele fez a episiotomia, me cortou sem anestesia e sem eu saber de nada. Eu levei dois cortes e batia o queixo de tanta dor. Fui suturada sem anestesia. Fiquei muito tempo após o parto sem deixar ninguém do sexo masculino se aproximar de mim. Me senti violada, como se minha intimidade tivesse sido mostrada de uma forma grotesca para todo mundo. Levaram 23 dias para cair os pontos e eu levei sete meses para conseguir me aceitar com tudo. Passei a ter pena de mulheres grávidas por medo que elas passassem por isso também. Estou desesperada chorando revivendo esse momento enquanto escrevo isso”, Keli.

Não podemos nos calar

É por esses relatos que devemos ter voz contra esses absurdos que acontecem diariamente conosco, mulheres. O coração chega a chorar de dor por tudo que essas mulheres passaram, e por saber que tantas outras também tiveram seus sonhos arruinados.

Tenhamos voz, tenhamos força, tenhamos conhecimento. Vamos ler, conversar e denunciar. Violência obstétrica existe sim, e É CRIME! Vetar o termo não fará com que ela suma, cabe a nós sermos resistência e mudar o futuro para as filhas da nossa geração.

Dica: para entenderem mais sobre o assunto assistam aos filmes da série "O Renascimento do Parto", no Netflix.

Beijinhos de luz