“♫ Sentado no meu quarto, o tempo voa/ Lá fora a vida passa e eu aqui à toa/ Eu já tentei de tudo mas não tenho remédio/ Pra livrar-me desse tédio” (Tédio, Biquini Cavadão)

Poucas coisas são mais aborrecidas do que um dia tedioso. Aqueles momentos sem inspiração, de tempo chato, amigos ocupados, nada de bom na TV ou na cidade para fazer.

Quando criança, isso é ainda pior! O tempo simplesmente não passa, e, já dizia o velho ditado: dia de chuva é dia de criança apanhar. Tá, sei que isso hoje é politicamente incorreto. Na realidade sempre foi simplesmente incorreto, na minha visão, pelo menos. A desproporção de tamanho e força já deveria ser suficiente para deixar claro que um adulto batendo numa criança é irrazoável, ou mais do que isso, irracional. Mas esse não é o assunto de hoje.

O tédio e os excessos.

Hoje em dia é muitíssimo raro ver uma criança de classe média ou alta sem atividades intermináveis ao longo de seus dias. Além das aulas convencionais, horários para línguas estrangeiras, balé, futebol, artes marciais, natação, informática ou robótica, música, e, muitas vezes, ainda as de reforço. Se cansa só de ler, imaginem as crianças.

Todos os pais, óbvio, têm preocupação em preparar adequadamente seus filhos, de deixá-los aptos a enfrentar esse mundo visceralmente competitivos que estamos criando ao longo das décadas, meio american way of life à moda brasileira.

Deixar os filhos sem fazer nada? Nem pensar! Por quê? Oras, por quê? Porque sim, porque os filhos dos outros fazem, porque têm que ser os melhores. Têm?

Os pais se assoberbam de atividades pós-trabalho e querem que seus filhos façam o mesmo, ou que cheguem cansados ao final do dia para irem logo para a cama sem incomodar muito. De preferência, nada. Isso quando os filhos não disputam o tempo dos pais com os celulares...

E quando não chegam cansados o suficiente, os pais atocham os filhos de internet. Um celular aqui, um tablet ali, uma TV com programação infinita em canais de streaming. Os cérebros das crianças não têm descanso. Não têm tempo para ficar entediados.

Fazer nada pode ser ótimo.

Entretanto, pesquisas dizem, já há algum tempo, que o ócio faz bem às crianças. Em tempos de pandemia, o ócio (e a paciência dos pais) foi explorado até quase o último limite. E isso aconteceu por pura falta de hábito do tédio.

Ficar deitado no sofá ou no chão, olhando para o teto branco, pode ser muito mais produtivo para uma criança do que um jogo no celular. Quando a criança se entedia, tende a imaginar, criar, inventar. Pode até querer voltar aos jogos lúdicos, os velhos jogos de tabuleiro, a pedir lápis e papel para escrever ou desenhar, ou mesmo a inventar situações ou jogos. Fantástico!

Isso sem contar que crianças que não convivem com o tédio podem ser adultos ansiosos e pouco focados. Justamente o contrário do que os pais querem!

Então vamos combinar: desligue os celulares e TVs e deixe seus filhos brincarem sem tecnologia, sem muitas regras. E brinquem com eles, deixando-se levar pela imaginação deles (não pelas suas vontades de pais). Poderão ser momentos de grandes consequências positivas, e sem os dramas da música do Biquini Cavadão...