“♫ Te vejo errando e isso não é pecado/ Exceto quando faz outra pessoa sangrar/Te vejo sonhando e isso dá medo/ Perdido num mundo que não dá pra entrar” (Na sua estante, Pitty).

Que vivemos num infeliz momento de polarização rasa de discursos políticos, não há dúvida. Aquele papo de que se você não é a favor de A, é a favor de Z, como se não houvesse inúmeras possibilidades entre um e outro, tem desgastado saúde e mente de muita gente.

Por conta desta polarização e da fragilidade de argumentos da maioria – decorrente da falta de conhecimento e compreensão e do excesso de achismos e síndrome do papagaio (pessoas que só repetem o que outros falam) – a radicalização tem imperado em algumas conversas políticas. Não raro, em caso de discordância, os ataques passam aos interlocutores e não às ideias.

Alguns grupos e pessoas só ficam satisfeitos se quem estiver por perto concordar plenamente com seus pensamentos. Esquecem-se que da diferença de pontos de vista surgem o progresso e a ordem.

Ratinhos e queijos

A impressão é que nas redes sociais radicalizações e extremismos estão ainda mais patentes. Agora se sabe, não é só aparência.

Estudo da Universidade de Yale indica que usuários de algumas redes sociais são discretamente “treinados” para publicar comentários radicais e raivosos por meio de um sistema de recompensas alimentado por curtidas e compartilhamentos. Como as redes sociais criam bolhas – ou seja, a maioria das pessoas conectadas entre si pensa mais ou menos da mesma forma – manifestar-se com indignação (no viés político-ideológico dessa pessoa) atrai popularidade e faz com que o usuário publique mais. Igual aos camundongos que vemos em documentários de experiências antigas de laboratórios.

A equipe de pesquisadores da Universidade identificou, com um software de machine learning, injúrias morais em posts do Twitter (quase 13 milhões de tweets de mais de 7 mil usuários) e descobriu que os que tiveram mais curtidas ou retuitadas eram mais propensos a continuar postando, o que foi confirmado com experimentos comportamentais controlados.

Para trás

Os estudos descobriram que não apenas nos grupos radicais isso acontece, apesar de ser nestes que os maiores absurdos são postados. Essa “recompensa” também influencia pessoas politicamente moderadas e acaba, aos poucos, radicalizando-os por conta do aumento de curtidas e retuitadas em postagens indignadas.

Como escrevi na semana passada, as fake news viraram uma epidemia. Os discursos radicais acabam contribuindo, pois atraem mais curtidas, comentários e repostagens pela sua própria, em alguns casos, bizarrice, alimentando esse ciclo de desinformação.

Indignação faz bem para a sociedade, pois permite a reflexão e a discussão. Recomendo, inclusive, o livro Indignai-vos, de Stephen Hessel, fininho e fácil de ler.

O que não faz sentido é confundir indignação com mentiras e ataques pessoais, injúrias e calúnias. Enquanto estas forem as preocupações de quem diz querer mudar o mundo para melhor, lamento dizer que só vamos para trás.