Foto Divulgação
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Na última quinta-feira (11), a Uber protocolou o registro do que deve ser o maior lançamento inicial (Initial Public Offering, ou IPO) de ações do ano - US$ 100 bilhões, valor estimado da empresa. O número surpreende, mas não tanto quanto outra afirmação no documento de mais de 300 páginas protocolado pela empresa: não há previsão para que a empresa, fundada em 2009, comece a operar com lucro - e a Uber admite que isso possa nunca acontecer.

"Nós esperamos que nossas despesas operacionais aumentem significativamente em um futuro previsível e podemos nunca alcançar o lucro", afirma o documento da empresa, que registrou prejuízo de US$ 3 bilhões em 2018.

Entre as fontes de prejuízo e de fatores de risco da empresa, estão as despesas imensas com motoristas, linhas de negócios "sem receita comprovada" e até agora fracasso de seu aplicativo de delivery de alimentos, Uber Eats. Também associada ao prejuízo da empresa está a estratégia de oferta abundante de códigos de desconto em mercados onde a empresa acaba de entrar.

Não é a primeira nem a última startup a admitir que suas operações estão e devem continuar indeterminadamente no vermelho. Sua principal concorrente nos EUA, Lyft, admitiu em seu IPO que tem um histórico de perdas e que é possível que nunca venha a alcançar estabilidade - quanto mais rentabilidade. Em 2017, o Snapchat afirmou que talvez nunca saísse do vermelho em seu IPO - e segue em prejuízo desde então.

O cenário das startups que tem tornado suas ações públicas em anos recentes remete a outro momento crítico do mercado especulativo: a chamada bolha dos pontocom, na virada do século - quando as possibilidades do mercado online levaram a abertura de uma infinidade de empresas cheias de promessas vazias. Segundo o site Infomoney, 84% das empresas de tecnologia que abriram seu capital em 2018 estavam no vermelho.

Das empresas que sobreviveram à bolha das Pontocom, muitas só passaram a ter lucro em anos recentes - mesmo a gigantesca Amazon.com, com uma fonte de recursos muito mais clara do que as startups da era dos apps, só saiu do vermelho em 2015; A Netflix, lider no setor de streaming, passou grande parte de sua história com lucros comparativamente tímidos e forte endividamento - em 2016, a empresa registrou lucro de US$ 187 milhões, com uma dívida consolidada de US$ 20 bilhões.

A situação da Uber e de outras startups é preocupante - e reveladora. A imensa valorização de empresas que registram prejuízo ano após ano parece contraditória: como uma empresa pode crescer, no prejuízo? E mais importante: se o prejuízo destas empresas passar do ponto da sustentabilidade em cima da valorização especulativa... o que acontece com quem depende delas? Se a Uber implodir, que fim terão seus motoristas?

A possibilidade destes serviços deixarem de ser não é remota: Em 2015, o serviço de vídeos Blip.tv, surgido como uma alternativa para o Youtube voltada para criadores de conteúdo, fechou seus servidores. Em 2016, o serviço de micro-vlogging Vine, ligado ao Twitter, fez o mesmo, ambos alegando não ser comercialmente viável manter as operações. O conteúdo sediado nestes serviços foi perdido - e quem vivia deles ficou de mãos abanando. Esperemos que o mesmo não ocorra com empresas como o Uber.

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