A tradicional e glamorosa edição do Oscar de 2022 ficou marcada por um momento que soou “es tapa fúrdio” no seio da elite americana. Figurativamente, se poderia dizer que o melhor curta-metragem da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de 2022, teve como protagonistas Will Smith dando um tapa na cara de Chris Rock no palco. Não pretendo julgar o mérito da cena, pois já foi, e continua sendo amplamente julgado. Como bem ponderou o rapper Emicida, “a tragédia maior é esse monte de pequenos príncipes pegando carona na cauda desse cometa, com seus próprios discursos.”

Apenas sustento que o ato, em si, foi reprovável, porém, o motivo, em si, foi legítimo. Mas, o que quero aqui, é me ater, tão somente, à plástica da cena, digna de prêmio de melhor fotografia. Desprovida de roteiro, a inusitada cena exibiu uma linguagem própria, demonstrando fielmente as ilimitadas possibilidades de despertar nossos instintos e expressar nossas emoções. Demonstrou que a violência coabita, em essência, as duas dimensões do escalafobético espetáculo: os protagonistas e os espectadores.

Como fenômeno antropológico complexo, e um dos prazeres mais primitivos da espécie humana, a violência vale-se de qualquer meio ou instrumento para se consumar. Por isso, penso não ser prudente nos agarrarmos na cauda desse cometa midiático para emitir discursos moralistas sobre o caso. Antes disso valeria refletir sobre o que desencadeia essa reação a que todos estamos sujeitos, já que figuramos uma mesma condição natural, ou, uma mesma tragédia humana, quando o enredo é a violência.

Então, mudando de página, o que me despertou nesse episódio, foi uma cômica fantasia. Fiquei imaginando como se daria essa mesma cena em nossa realidade cultural, com protagonistas brazucas. Vamos primeiro à sinopse americana: Entre a agressão verbal e a física, Will Smith se desloca elegantemente, aproximando-se de Chris Rock, que lhe aguarda em posição corporal de mordomo sorridente. Smith lhe desfere um cirúrgico tapa na face esquerda, com cinematográfico estilo, seguindo o escript de set de filmagem. Rock, o elogia ‘masoquistamente’ com dois sonoros “uaaau.” Momentos depois, vem a pública retratação, e fim.

Sinopse brasileira: O ofendido no meio da plateia se levanta, xinga a mãe do humorista, e o ameaça de moer na porrada. O humorista, por sua vez, o desafia bradando sonoros “cornélho” (contração de corno + velho). Inicia-se a pancadaria. O barraco se alastra para toda a plateia. Chega a tropa de choque equipada com cassetetes e gás de pimenta. Muitos se dispersam, alguns recolhidos ao camburão, outros encaminhados para o hospital, e fim. Seria a vida imitando a arte mais que a arte imitando a vida.