O polêmico tema destaque da semana ficou por conta do projeto de lei que estabelece o rebaixamento das calçadas. Como praticante de regulares caminhadas, tenho usufruído e observado nossas calçadas.

Posso afirmar que se tem havido esforços em padroniza-las, o que conseguimos até aqui, nos lembra bem um tapete “Corpus Christi”. Se não bastasse o modelo remendado, a ordem agora é rebaixa-las.

Ironicamente me vem, então, algumas indagações: ué? rebaixa-las mais? a que nível? ao de trilha? carreiro? vereda? ou picada? Ah não, nesse caso prefiro que mantenhamos o padrão “Corpus Christi”, desde que sem obstáculos que limitem a passagem do padre.

Sem o propósito de explorar seus méritos técnico e jurídico, não consigo ver nada no referido projeto, senão um meio imediatista de remediar nosso crônico problema de mobilidade e acessibilidade. Longe, portanto, de solucionar ou revolucionar.

Não vejo no bojo desse projeto, um olhar disruptivo para o futuro da cidade. Seu propósito essencial é responder ao incoerente modal de mobilidade ancorado no ‘paradigma de um automóvel per capita’. Seu intento é corresponder aos anseios dos que ainda se utilizam, individualmente, de engenhocas locomovendo-se sobre quatro rodas, pesando toneladas, matando pessoas, ocupando demasiados espaços e poluindo o meio ambiente.

Nossa consciência formatada e obtusa de sociedade do século passado, aliada à relativa inépcia do poder público, permanecem estacionadas alimentando esse drama urbano.

Penso que acessibilidade e mobilidade encontram seu principal obstáculo nessa estrutura kafkiana de organização social, e na dinâmica cultural com que ela se molda. Significa dizer que somos tracionados e guiados por padrões estabelecidos como, pressa, vantagem, facilidade, estética, uniformidade, conformidade, lucratividade, racionalidade, mínimo esforço, entre outros.

Convencionou-se assim, que tudo o que se adapta a esses arquétipos, pode-se considerar como aceitável e adequadamente normal. Pois bem, não obstante a abundância de novas tecnologias e fontes renováveis de energia, paradoxalmente, essas engenhocas seguem se multiplicando e estabelecendo status social de acordo com seu tamanho, potência e modelo. Convenhamos, isso não é ridículo?

Óbvio que não cabe ao comércio ‘pagar o pato’, no entanto, ampliar vagas para veículos na cidade é uma visão desprovida de princípio de sustentabilidade e desconectada com o futuro. Equivale a trafegar pela contramão à noite, com os faróis apagados. Precisamos de projetos de VLTs, ciclovias, transportes coletivos, praças, áreas verdes, para que todos ganhem. Por ora, não passamos de uma sociedade deficientemente rica.