Na coluna passada falamos de como todos temos nossas peculiaridades, nossas características únicas, e que normalidade não é uma coisa nem boa nem ruim, só mais comum. Infelizmente tendemos a ter o péssimo hábito de normalizar ou valorizar as nossas peculiaridades, enquanto achamos aquelas dos outros prejudiciais, estranhas, ruins, negativas, primitivas, não naturais, e toda sorte de outras qualidades duvidosas.

Orientação sexual é uma destas coisas onde há uma orientação “normal”, no sentido de mais comum, e outras menos frequentes. Muita gente já sabe, mas é necessário reforçar, não há nada de errado em ter qualquer orientação sexual, como ser heterossexual, homossexual ou bissexual.

Orientação sexual indica por quem uma pessoa sente atração, sejam homens, mulheres, ambos ou nenhum, e apenas isto. Todos conhecemos pessoas que têm atração por homens, e também por mulheres, sejam elas mesmas mulheres ou homens.

Orientações sexuais diferentes da heterossexual infelizmente passaram pelo nosso péssimo hábito, e são vistas por muita gente como coisas ruins, com todo o tipo de narrativa para justificar que estas pessoas sejam tratadas de forma diferente, excluídas de espaços, de relações familiares, sejam até maltratadas publicamente e em privado. A partir deste sentimento, revelar o que se é, o que se sente, pode ser muito difícil.

Essa perspectiva de ser excluído é perigosa. Pelas pesquisas, a rejeição da sociedade aumenta as chances de jovens LGBT de contemplarem o suicídio em quatro vezes. A rejeição dos pais aumenta esse risco em mais quatro. Sabemos que a rejeição da sociedade e da família causam enorme sofrimento, seja ela uma rejeição efetivada, ou uma imaginada pela pessoa que por isto decide ocultar de todos a sua orientação.

Quando falamos em psicologia, sexologia, nosso objetivo é sempre diminuir o sofrimento de todos os envolvidos, e aumentar o bem estar. Se quisermos fazer isto, são importantes atitudes proativas de todos: sociedade, famílias e indivíduos.

Como sociedade, podemos nos recusar a usar estas orientações sexuais como ridicularização, como se tornassem esta pessoa menos humana que os demais a sua volta. Se reconhecermos que todas as pessoas têm valor, o mesmo valor enquanto seres humanos, e tratarmos a todos com igual respeito, melhoraremos a vida de todos certamente.

Enquanto famílias, podemos nos dar conta que a sexualidade só costuma se revelar na puberdade, e enquanto educamos os filhos e vamos criando expectativas, não sabemos quem vão vir a ser.

Quando um membro da família nos revela algo surpreendente, pode ser normal termos uma reação emocional, mas é muito importante que a família busque acolher, informar-se e educar, encontre espaço para escutar, e pode ser benéfico buscar apoio em profissionais e em outras famílias que já passaram pela mesma experiência e que hoje têm uma boa convivência.

Enquanto indivíduos, podemos buscar nos aceitarmos como somos. Guiar nossos comportamentos pela ética, pelo respeito aos demais, e apreciar o que nos torna únicos. Quando se enfrenta a rejeição da sociedade, ou da família, pode ser sensato procurar se revelar a partir de uma posição de força, construindo uma rede de apoio e uma certa independência financeira, evitando que uma possível rejeição nos coloque em posição de risco.

Francisco Hertel Maiochi - CRP 12/10098 - Psicólogo Clínico formado pela ACE, Pós Graduado em Clínica de Orientação Psicanalítica pela PUC-PR, Mestrando em Sexologia pela Universidade Lusófona de Lisboa.