Foto Fatos Desconhecidos
Foto Fatos Desconhecidos

Esta semana ficamos com instabilidade nas mais famosas redes sociais e no WhatsApp, e o que pudemos ver foi uma série de notícias sobre isso, e milhares e milhares de usuários desesperados, sem entender o que acontecia! Mensagens de voz e fotos não eram baixadas ou nem mesmo enviadas, vídeos não podiam ser postados.

Coloquei o telefone de lado e fui resolver minhas coisas, afinal para assuntos urgentes, existe uma linha telefônica ativa, que pode ser usada qualquer momento.

Fiquei pensando no grau de dependência de todos nós, ou de quase todos: parecia que o inconformismo tomava conta das pessoas nos grupos, que perguntavam se de fato alguém sabia o que estava acontecendo, outros levantando lebre sobre intercepção da Polícia Federal, Interpol e FBI, e até sobre uma intervenção da Coreia do Norte a fim de deflagrar uma terceira guerra mundial, contra os EUA. Deu de tudo, li de tudo, só faltando atribuir o mundo “meio off-line” a uma invasão alienígena.

Minha infância off-line

Quando pequena, se quiséssemos falar com pais, tínhamos primeiro que saber onde estavam, buscar a caderneta de telefones (anotados à mão) e ligar do telefone fixo. Deveríamos falar rapidamente porque ligações custavam uma fortuna, além de ter paciência para “discar” os números nos aparelhos que normalmente dispunham de um mecanismo que girava, número a número, lentamente.

Só mais tarde chegou o telefone sem fio, trazido do Paraguai, que pesava muito e custava uma nota! Era sem fio, mas não era possível sair andando com ele pela casa, afinal as interferências eram tantas, que nada se ouvia.

Até hoje tenho decorado os números telefônicos dos amigos mais próximos dos meus pais, meus avós e tios, trabalho do pai e o da nossa própria casa. Na época eram só seis dígitos e o nosso era 22-5294. Para mandar recado para alguém, precisávamos ir até a casa da pessoa ou do vizinho, ou ligar e pedir que o recado fosse anotado.

Nem nos melhores sonhos imaginávamos que existiriam telefones portáteis, celulares ou smartphones, e muito menos que faríamos absolutamente quase tudo por meio deles. Mal conseguíamos entender que um dia os computadores dominariam o mundo, pois ainda fazíamos curso de datilografia! E vivemos muito bem assim, obrigada! Não imaginávamos, não existia, não tínhamos, e por isso, não precisávamos!

Tecnodependência

Hoje, um bebê sabe como mexer num tablet, e nós levamos os celulares até para o banheiro. Não desconectamos. Ficamos reféns. Nos tornamos escravos e alienados ao clique, ao “tempo real”, ao like, aos seguidores, aos memes.

Poucos conseguem se abster de mundo virtual, cada vez mais rápido e perigoso. Estes dias no aeroporto um senhor me disse: “minha rede social é o e-mail. Não tenho celular, não quero ter. Uso meu e-mail como ferramenta. Se quiserem falar comigo, apenas no telefone fixo”.

Fiquei olhando para ele meio incrédula: de que planeta aquela criatura, que usava mais verdes com lagartixas estampadas, teria vindo? Estava saindo do Canadá com destino ao Brasil. Os filhos só teriam notícias dele quando chegasse ao Rio, e depois de pegar um táxi, e aí, chegasse em casa! Táxi, pois ele não possui telefone celular, então não possui aplicativos, e não pediria o serviço de Uber, logicamente.

Cheguei a achar o vovô maluco, mas até curti a “ousadia” dele de preservar sua sanidade mental em tempos de “depressão e ansiedade virtual generalizada”. Com certeza para este senhor, o dia da “instabilidade” não o afetou. Nem deve estar sabendo disso. Deve estar como ele relatou que vive: entre livros e fotografias, entre paisagens e bons filmes.

Feliz é ele, que em pleno 2019 ainda cultiva o modo de viver dos anos de 1980 e 1990, vestindo seu calção e se lançando ao mar de Ipanema nos fins de tarde, vendo o sol cair e a noite chegar ao vivo, em tempo real, olhando para as nuvens (as que realmente ficam no céu, são brancas e feitas de vapor e umidade) e com os pés na areia de verdade.

Enquanto isso, os conectados seguem, com a cabeça nas nuvens imaginárias, com os pés nos sapatos e os dedinhos nos teclados...

Quer receber as notícias no WhatsApp?